A cada ano, cerca de 190 a 200 novos casos de câncer infantil são identificados pelas equipes que atuam na oncologia do Hospital da Criança de Brasília (HCB), um hospital que atende doenças raras e complexas; referência, na rede pública do Distrito Federal, para as doenças hematológicas como o câncer e a Leucemia, um câncer que se origina nos formadores do sangue, na medula.

O Hospital da Criança é o caminho para a identificação de uma suspeita de um câncer infantil. Nos ambulatórios da área, são realizadas 1.220 consultas, por mês, e a internação oncológica tem mantido, uma média, de 40 crianças em tratamento. A acessibilidade é um fator importante, diz a diretora técnica, a hematologista Isis Magalhães (foto abaixo): "Em caso de suspeita, precisa receber esse paciente rapidamente para realizar exames a fim de que o diagnóstico seja rápido e o início do tratamento também".

"Temos aqui no HCB o Laboratório de Pesquisa Translacional  que executa, de maneira rapida, os exames necessários ao diagnóstico dos varios subtipos da Leucemia Infantil . Permite  aos médicos o inicio, muitas vezes  ainda nas primeiras 24  hs de sua admissão,  o protocolo de tratamento  adequado entre os que mostram os melhores resultados em todo o mundo. Esse é um diferencial importante dentro do sistema de saúde com dedicação ao câncer infantil.

Hoje, essas são metodologias visando técnica da genética e da biologia molecular que aqui, se consegue fazer com extrema qualidade técnica-científica, dentro do SUS, de maneira integrada à assistência", garante a médica e pesquisadora do HCB. Aprendemos os 3 ensinamentos com os países do primeiro mundo: a união da ciência laboratorial com a ciência clínica, que tem dados clínicos. A estratificação de risco, para adequar a intensidade do tratamento a cada  subtipo de leucemia ( quase um tratamento personalizado) e, o terceiro ensinamento é o de centralizar o cuidado. Isso aumenta a rapidez para que as equipes ganhem expertise nas peculiaridades para tratar o câncer", explica Dra Isis.

No dia Internacional de Conscientização do Câncer na  Infância, que traz ao público a consciência sobre essa doença na infância(15/02), a hematologista pediatra do Hospital da Criança alerta para o diagnóstico precoce uma vez que é impossível, como ela afirma, "fazer a prevenção primária, ao contrário do câncer do adulto onde existem fatores de risco como o tabagismo".

A médica explica que, no câncer da criança não tem uma associação de um fator ambiental predisponente. Por isso não é possível prevenir. "O câncer infantil tem uma biologia distinta.É proveniente de células embrionárias. Instala-se e progride rapidamente, não fica localizado.

" A maior arma é o diagnóstico precoce. O câncer mais comum é a Leucemia Linfóide Aguda, que é primária; dos formadores do sangue na medula óssea. Começa a prejudicar a formação do sangue e a criança fica anêmica, pálida, podem aparecer manchas roxas em lugares não habituais, como, por exemplo, no tórax, e sangramento gengival. A dor óssea  articular, também ocorre, pois a doença está na  medula  óssea  o chamado "tutano", como popularmente se diz. Um outro achado clínico  e uma característica importante dessa doença são:  aumento dos  gânglios linfáticos, aumento do baço e do fígado. Esse é o quadro clínico da leucemia aguda da infância.

Os tumores do sistema nervoso central no cérebro, (quando a criança apresenta mudança de comportamento, vômito matinal, alterações na marcha, estrabismo), são sinais de alerta para os quais temos de realizar campanhas de conscientização e do encaminhamento do paciente. Nos tumores do sistema nervoso central, com prognóstico mais reservado, o neuroblastoma é o quarto ou quinto em frequência.

Digo sempre aos meus residentes; se num primeiro momento não conseguiram dar um diagnóstico, peçam para essa criança voltar em algumas semanas. Ouçam as queixas da mãe e não larguem esse paciente. Esses são cuidados que nós temos e que chamamos de campanhas de diagnósticos precoces", diz Isis Magalhães, sob um enfoque de alerta dessa doença na infância.

 

Prognóstico da Doença

A Hematologista Isis Magalhães traz uma resposta animadora diante do diagnóstico do câncer infantil. Apesar da agressividade, a Leucemia Linfóide Aguda(LFA) a mais comum,  é também a mais sensível à quimioterapia

Ministrada de forma intravenosa, (oral também) dentro de protocolos com a união de vários medicamentos juntos, essas multidrogas visam atacar a divisão celular.

"Tratar o câncer de uma criança não pode ser feito de forma isolada, num consultório eventual. Precisa estar dentro de uma instituição que dê a atenção integral a esse tratamento diante das possíveis complicações desses tratamentos intensivos, infecções oportunistas", adianta a médica.

 

Por que o Hospital da Criança de Brasília é referência?

Formado pela união da sociedade civil, pais de crianças com câncer e profissionais de saúde do Hospital de Base, com os resultados apresentados na ciência e pesquisa, o Hospital atraiu a atenção de pesquisadores e instituições de renome internacional.

Hoje, o HCB faz parte de centros de pesquisa nacionais e mantém interrelações com centros internacionais, uma iniciativa global para a melhoria de sobrevida do câncer infantil que foi lançada pela Organização Mundial de Saúde em 2018. O protagonismo dessa ação foi do St Jude Children's Research Hospital, de Memphis-EUA.

"Essa ação tem proporcionado programas de capacitação para todo o mundo e na América Latina. O Hospital da Criança de Brasília foi integrado a esse movimento e tem participado de programas que o St. Jude tem oferecido para a participação na melhoria da qualidade dos profissionais: enfermeiros, farmacêuticos, médicos. Dessa forma, também, há o investimento na qualidade do cuidado médico em oncologia pediátrica.

A Integração multiprofissional tem permitido um atendimento emergencial na  terapia da criança oncológica que pode exigir uma intervenção de diálise contínua e começar o tratamento, por exemplo, de uma leucemia aguda.

Para isso se  faz necessário ter equipe multidisciplinar: não só hematologista ou oncologista, e sim, infectologista, pediatras intensivistas e, também, cardiologistas e epidemiologistas. É essa multidisciplinaridade que garante o sucesso de um tratamento", afirma a médica do Hospital da Criança.

O Hospital, com todos esses avanços, evidencia percentuais de cura e sobrevida que variam de acordo com os tipos de câncer, mas, no caso da Leucemia Linfóide Aguda, alcança 80%.

Hoje somos, também, referência na pesquisa e no tratamento da Leucemia da Síndrome de Down e provemos a detecção de uma mutação genética, no gene GATA-1, próprio da Leucemia Mielóide Aguda, associada à Síndrome de Down. Somos nós, o HCB, que coordenamos esses estudos, no Brasil.

Temos conseguido publicações internacionais de grande impacto na ciência como foi em 2022, com nossa publicação na Revista Leukemia (Nature). Esse é um crescimento reconhecido, na comunidade científica. É fruto do entusiasmo das nossas equipes pela melhoria de qualidade de assistência. Então, eu me pergunto: "O que podemos fazer à mais, estamos sendo também estimulados a nos desafiar, constantemente, no sentido de apresentar os projetos para a melhoria contínua", diz a incansável médica que acompanha todos os  protocolos dos pacientes da oncologia do HCB.

 

Texto: Cláudia Miani

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