Síndrome inflamatória e prejuízos ao neurodesenvolvimento: os impactos da Covid-19 para crianças e adolescentes

27/04/2023

 
No quarto dia do Congresso Internacional da Criança com Condições Complexas de Saúde — organizado pelo Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) em parceria com o Hospital Sant Joan de Déu, de Barcelona —, na quinta-feira (27), os palestrantes discutiram sobre os desafios da COVID-19 no cuidado pediátrico terciário e abordaram os principais impactos da pandemia para crianças e adolescentes, como a síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (MIS-C, na sigla em inglês).
 
A síndrome é uma condição rara associada à exposição ao vírus Sars-CoV-2, que causa a COVID-19. A MIS-C gera uma reação imunológica exagerada que ocorre entre duas e seis semanas após o contágio pelo vírus, causando sintomas como febre, erupção cutânea, vermelhidão nos olhos e condições gastrointestinais, como diarreia, dor de estômago e náusea.
 
Segundo a diretora técnica do HCB, Isis Magalhães (foto acima), entre julho e outubro de 2020 o hospital atendeu 122 pacientes diagnosticados com COVID-19 e 21 deles evoluíram para um quadro de MIS-C. Além disso, ela comentou que 1/3 das crianças e adolescentes infectadas pelo novo coronavírus nesse intervalo precisaram de terapia intensiva, a maioria com síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica.
 
Apesar da gravidade da doença, nenhum dos pacientes diagnosticados com MIS-C atendidos pelo HCB morreu. “Estávamos enfrentando o desconhecido, mas determinamos princípios para seguir trabalhando pela segurança dos pacientes. Não poderíamos parar os tratamentos de outras doenças e fechar portas de um centro que é referência na nossa região”, analisou.
 
 
O presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria, Renato Kfouri (foto acima), comentou que a MIS-C intrigou a comunidade médica. Segundo ele, como a síndrome é causada pela exposição ao Sars-CoV-2, é fundamental que crianças e adolescentes reforcem a imunização contra a COVID-19.
 
“Existem recomendações de vacinação de pacientes especiais tanto pela sociedade cientifica quanto pelo Ministério da Saúde. A vacinação é sempre boa para todo mundo, ainda mais para pacientes com comorbidades ou doenças raras. E nos casos de doenças como gripe ou COVID-19, o risco de complicações e de morte para esse público é muito mais elevado.”
 
Neurodesenvolvimento afetado
Os palestrantes também destacaram que a COVID-19 pode comprometer o neurodesenvolvimento de crianças e adolescentes. Nadja Nara Camacam, da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (foto acima), comentou que algumas situações que aconteceram no início da pandemia, como o fechamento de escolas e o isolamento social, afetaram o desenvolvimento global de bebês e revelaram traços de comportamento como irritabilidade e inflexibilidade.
 
Segundo ela, crianças que nasceram e começaram a crescer durante o isolamento social estão mais sujeitas a obstáculos psíquicos e sociais que limitam uma infância plena. Alguns dos possíveis distúrbios são desatenção, preocupação, problemas de sono, falta de apetite, pesadelos, desconforto e agitação.
 
Nadja explicou que contribuem para essa realidade aspectos como o estresse que a situação de confinamento causou aos pais, a falta de atenção que as crianças receberam dos seus responsáveis, o uso exagerado de celulares e outros aparelhos eletrônicos e a distância dos colegas de colégio e das experiências vividas no ambiente escolar.
 
“Com o isolamento social e uma rotina distante de outras crianças e da escola, boa parte das crianças tiveram experiências limitadas em uma etapa da vida marcada por descobertas e a exploração do mundo. O isolamento restrito ao ambiente familiar provocou uma perda de referências externas do ambiente ampliado. E as famílias frente ao stress perderam a capacidade de serem criativas”, destacou Nadja.
 
“O desenvolvimento é baseado em etapas e cada etapa tem seu processo e é importante que haja um equilíbrio entre a motricidade, a capacidade intelectual, a parte emocional e dentro disso os vínculos afetivos ocupam uma parte muito importante. Essas atividades não visam buscar crianças precoces ou avançar nas etapas do desenvolvimento. A estimulação oportuna busca potencializar o desenvolvimento das crianças de acordo com sua idade cronológica”, completou.
 
Texto: Augusto Fernandes