Rádio Dodói aborda puberdade precoce

28/05/2020

A puberdade é uma fase no desenvolvimento dos adolescentes; quando ela acontece muito cedo, porém, pode necessitar de tratamento. Em entrevista à Rádio Dodói, a endocrinologista pediatra do Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) Ana Cristina Bezerra explica como é o diagnóstico e o acompanhamento da puberdade precoce.

HCB: Quais são os casos relacionados à puberdade que são encaminhados para o HCB?

Ana Cristina Bezerra: Acho que toda puberdade assusta: quando é em crianças mais novas e até em crianças da idade correta. Às vezes, os pais ficam assustados se está ou não de acordo com a idade. Então, o que é mais encaminhado são as puberdades mais limítrofes, próximas dos oito ou nove anos. É aí que fazemos a diferenciação: se é realmente a puberdade precoce ou se é só uma variação do normal, mas que não precisa fazer tratamento nenhum. Nem toda criança que tem a puberdade mais cedo vai precisar de medicação.

HCB: Quais são os sinais a que os pais devem prestar atenção?

Ana Cristina Bezerra: A primeira coisa a se fazer é definir: a puberdade é definida como precoce se surgir algum caractere sexual, como seios e pelinhos antes dos oito anos da menina, ou o aumento do testículo e pelinhos pubianos ou axilares antes dos nove anos nos meninos. Os pais devem ficar atentos – não só pais, como pediatras também – ao surgimento dos seios, pelinhos ou cheirinho em baixo do braço, antes dos oito anos nas meninas, ou pênis e testículos aumentando nos meninos abaixo de nove anos.

HCB: Se os pais não perceberem logo e não buscarem atendimento, quais são os riscos que essas crianças correm?

Ana Cristina Bezerra: Com a puberdade precoce, o maior risco é a questão do crescimento, porque a criança tem o amadurecimento do osso mais rápido e para de crescer mais rápido. A grande preocupação, quando se fala de puberdade, é a questão do crescimento final – e lógico, os incômodos: se a menina, por exemplo, de cinco anos está menstruando, isso realmente se torna um incômodo. O principal em termos de risco é a estatura final; mas existe o risco de abuso – tem meninas que entram na puberdade mais cedo e há esse risco. Nos meninos não tanto, é mais comum nas meninas.

HCB: Qual é o tratamento que vocês oferecem aqui no HCB?

Ana Cristina Bezerra: Quem tem a puberdade realmente precoce não precisa usar hormônio de crescimento; nós usamos somente o bloqueador da puberdade. A medicação é uma injeção mensal ou trimestral – aqui, normalmente trabalhamos com a mensal, que é fornecida pelo governo na rede pública e é um tratamento que não tem um tempo certo de duração. Varia de acordo com a idade de início, de acordo com a idade da menina (se está perto de menstruar ou não). Nós precisamos entrar com a medicação na época em que fizer o diagnóstico da puberdade precoce e tirar na época certa – mais ou menos por volta dos 11 ou 12 anos das meninas e meninos.

HCB: Existe algum diferencial no tratamento da puberdade precoce do HCB e nos outros hospitais?

Ana Cristina Bezerra: O tratamento é basicamente o mesmo em todos os hospitais. Geralmente, esse tratamento é acompanhado pela endocrinologia: acompanhamos de perto o ultrassom, para ver se o útero está normal ou não, se o raio-X da mão está avançando, a idade óssea. O tratamento, em termo de medicação, é a mesma coisa. Hoje, nós temos vários outros serviços que já têm endocrinopediatras também, trabalhando na rede. Então, nem toda puberdade precoce vem para o Hospital da Criança de Brasília.

HCB: Quais são os casos que vêm para o HCB?

Ana Cristina Bezerra: Atualmente, os pacientes vêm triados via regulação de vagas. Todo paciente que tem mamas ou pelos antes dessas idades tem indicações de passar por uma avaliação, não necessariamente um tratamento. Atualmente, qualquer criança que            começa com qualquer caractere sexual secundário antes dos oito anos da menina ou nove do menino vem para essa avaliação.

HCB: Aqui no HCB, vocês recebem algum caso mais grave em relação à puberdade precoce?

Ana Cristina Bezerra: Em gravidade, não. Depende do motivo da puberdade precoce, então temos, às vezes, crianças com tumores em que os sintomas foram a puberdade precoce. Na puberdade precoce em si não há gravidade; no motivo que levou à puberdade, sim. Temos crianças com idade muito precoce, por exemplo, aos três anos, que às vezes tem aumento de mamas e até menstruação; nós temos que investigar para ver se não é um tumor que está por trás disso.

HCB: Existem outras causas que levem à puberdade precoce?

Ana Cristina Bezerra: Existem tumores, que podem levar, e existem situações em que nós temos visto uma antecipação dessa puberdade por fatores externos. Exemplo: o uso dos disruptores, substâncias externas que podem alterar as crianças. Uma coisa que nós vemos muito é a reposição de hormônios em mulheres ou homens com gel. Isso também faz uma alteração hormonal na criança – então temos que ter cuidado, pois o uso indiscriminado pelos adultos pode afetar a criança. 80% das meninas não têm um motivo da puberdade; provavelmente é algo genético, os genes que nós já sabemos que estão envolvidos com a puberdade precoce. Nos meninos não, só em 50% dos casos é que nós sabemos a origem; os outros nós precisamos investigar, pois nos meninos é mais grave do que nas meninas.

HCB: Por que é mais grave nos meninos?

Ana Cristina Bezerra: Porque geralmente está mais associado a tumores e a outros fatores. Há, por exemplo, o que chamamos de hiperplasia de supra renal, que é uma outra doença que pode avançar a puberdade nos meninos. Então, nos meninos nós sempre investigamos a doença; nas meninas, a maior parte delas não tem doença associada.

HCB: No caso de ter uma doença associada, o tratamento continua e a criança é encaminhada para outro médico aqui do HCB, mesmo?

Ana Cristina Bezerra: Se nós detectarmos um tumor, passamos para a avaliação da equipe de Oncologia, por exemplo. Normalmente, as outras causas da puberdade a própria endócrino consegue resolver, então fica com a gente, mesmo.

HCB: Tem alguma especialidade que também encaminha crianças com puberdade precoce para vocês?

Ana Cristina Bezerra: Nós recebemos muitas crianças para a avaliação da Neurologia, porque a própria condição neurológica da criança pode afetar a parte de produção dos hormônios e avançar a puberdade; o uso de medicações da parte neurológica, às vezes; também pode avançar a puberdade – mas tudo é resolvido, tratável, geralmente não temos complicações. 

 HCB: Quais são as orientações de vocês para os pais e responsáveis?

Ana Cristina Bezerra: Primeira coisa: não usar nada de adulto em crianças; tudo que é da criança, tem que ser para criança. Produtos de higiene – shampoo, condicionador, hidratantes, tudo tem que ser infantil, não pode usar nada de adulto. Segundo: evitar aquecer alimentos em vasilhas de plástico – não só evitar colocar o plástico no micro-ondas, mas evitar colocar comida quente no plástico também, pois o plástico libera uma substância que pode avançar a puberdade. Em relação às meninas, evitar o consumo de soja. Esse é o principal ato que nós sabemos que pode avançar a puberdade.