O alerta amarelo para doenças no fígado: um alerta diário.

09/03/2023

Um bebê com sinais de ictirícia, até 14 dias de nascido, na maioria das vezes, trata-se de uma icterícia fisiológica. A coloração amarelada da pele e nos olhos, na primeira semana de vida, está presente em cerca de 60% a 80% dos recém-nascidos. Passada a segunda semana, se persistirem os sinais de amarelão, pode ser um indicativo de doenças do fígado e vias biliares. Chama-se colestase neonatal, que ocorre pelo aumento da bilirrubina direta, fezes esbranquiçadas e urina escura. Podemos estar diante de um quadro de urgência. O diagnóstico e o tratamento preciso são decisivos para salvar o paciente. 

Os episódios de icterícia por serem comuns, muitas vezes são pouco valorizados enquanto sinais de alerta. 

Uma pesquisa, utilizando o mesmo protocolo em diversas localidades no país, incluiu 513 crianças com atresia biliar- provocada pela interrupção nos dutos biliares por má formação ou inflamação- e revelou o agravamento do quadro quando há um encaminhamento tardio para os centros de referência.

Os pediatras hepatologistas, num esforço concentrado, alinharam uma estratégia, em nível nacional e, em conjunto com a Sociedade Brasileira de Pediatria e Ministério da Saúde lançaram a campanha do Alerta Amarelo, que consiste em conscientizar pais e responsáveis de recém-nascidos sobre a graduação das cores da fezes, na Caderneta de Saúde da Criança. Dessa forma, pode se acelerado o diagnóstico precoce nos casos de colestase neonatal.

O Hospital da Criança de Brasília José Alencar é referência no Distrito Federal para o encaminhamento e avaliação dessas crianças com alterações hepáticas. Os profissionais do Serviço de gastroenterologia e hepatologia realizam, nas quartas-feiras, pela manhã, um laboratório de hepatologia, de "porta aberta" para as crianças encaminhadas pela campanha do alerta amarelo.

A pediatra gastroenterologista e diretora clínica do Hospital, Elisa Carvalho (foto acima) responsável pelo serviço, ressalta os sinais de alerta: "As fezes esbranquiçadas e a urina escura, trata-se de uma emergência clínica. O encaminhamento, o quanto antes, pode salvar o paciente e evitar, inclusive, a necessidade de um transplante hepático, ou seja, são ações que influenciam na sobrevida e qualidade de vida do recém-nascido. O nosso ambulatório promove o acolhimento dessas crianças e o diagnóstico, precoce, proporciona o tratamento adequado", conclui Elisa Carvalho. A gastroenterologista, chama a atenção dos especialistas:.

"Apesar dos avanços nos métodos complementares diagnósticos, a história clínica completa e o exame físico minucioso continuam sendo fundamentais. 

Os achados variam de apenas icterícia leve, até os sinais de insuficiência hepática grave. Na atresia biliar a criança, em geral, tem bom peso de nascimento, apresenta-se com icterícia, acolia e colúria, com aspecto “saudável” nos primeiros meses de vida. Podem apresentar, em menor frequência, poliesplenia, asplenia, cardiopatia congênita, má-rotação intestinal e situs inversus. Os bebês com baixo peso ao nascimento, microcefalia, púrpura e coriorretinite, devem ser submetidos à pesquisa de infecções congênitas. Alterações dismórficas são observadas nas cromossomopatias. A irritabilidade, os vômitos, a letargia, os sinais de hipoglicemia e a acidose metabólica chamam a atenção para os erros inatos do metabolismo. As anormalidades neurológicas são observadas na síndrome de Zellweger, nas mitocondriopatias e como consequência de complicações como, os episódios de hipoglicemia, hiperamonemia e hemorragia intracraniana. 

Embora os transtornos que levam à insuficiência hepática fulminante sejam incomuns, um alto grau de suspeição deve ser mantido, já que o diagnóstico precoce e o início imediato do tratamento são a única esperança de sobrevivência".

 

Texto: Cláudia Miani