“Missão cumprida de chegar até aqui, mas temos muito a fazer”
01/12/2021

O Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) completou 10 anos de funcionamento no dia 23 de novembro, mas a história do Hospital começou na década de 1980, não se resume a uma década. A ideia de erguer um centro médico especializado no atendimento de crianças e adolescentes com doenças raras e de alta complexidade surgiu ainda na década de 1980, quando médicos do Hospital de Base de Brasília perceberam que o público infanto-juvenil precisava de uma assistência mais qualificada.
Fazia parte desse grupo a médica oncologista e hematologista pediátrica Isis Magalhães. Segundo ela, na época, embora salvar crianças e adolescentes acometidos de câncer fosse algo raro, era fundamental que a equipe médica passasse a tratar esse público de forma mais individual, o que aumentaria as chances de cura. Hoje, Magalhães é a diretora técnica do HCB e comemora os 10 anos de história do Hospital, mas diz que o mais importante é continuar garantindo um amparo humanizado a crianças e adolescentes.
HCB: Como surgiu o sonho de se construir um hospital voltado ao público infanto-juvenil?
Isis Magalhães: Nós começamos no Hospital de Base, na década de 1980, quando tratávamos de crianças com câncer. Era uma missão impossível, naquele tempo, imaginar que uma criança acometida de câncer pudesse ser salva e curada, mas o serviço do primeiro mundo mostrava que era possível curar crianças com câncer. Então, eu tinha a convicção de que tinha que trazer isso para o Distrito Federal. Começamos a trabalhar no Hospital de Base mudando a mentalidade, para que todos os especialistas entendessem que aquelas crianças tinham chances de sobreviver se tratássemos e diagnosticássemos adequadamente. Isso realmente mudou a história, porque as crianças e adolescentes começaram a ter voz e nós começamos a dar visibilidade a esses pacientes, que eram invisíveis dentro do sistema.
HCB: Quais pessoas foram importantes nesse processo?
Isis Magalhães: O principal foi o doutor Oscar Moren, chefe da pediatria do Hospital de Base durante 30 anos. Ele nos embutiu nessa história de que, mesmo se tratando de um serviço público, tinha que ser bom; nós tínhamos que saber diagnosticar e tratar adequadamente as crianças. Ele nos manteve engajados até conseguir um hospital específico para crianças, assim como a doutora Elisa de Carvalho (diretora do corpo clínico do HCB), que manteve a pediatria do Hospital de Base sempre unida. Também tivemos o Roberto Nogueira e Maria Angela Marini, que fundaram a Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias (Abrace). A Abrace foi fundamental, principalmente com a Casa de Apoio, ajudando todas as famílias a permanecer em Brasília para tratar a doença adequadamente. Quase 50% das crianças vinham de fora do Distrito Federal. Como não tinham onde ficar, abandonavam o tratamento. Temos que valorizar esse trabalho voluntário presente, persistente e perseverante, que é a alma do HCB.
HCB: A senhora está desde o início do sonho de se criar um hospital para crianças e adolescentes, e hoje se passaram 10 anos da inauguração do HCB. Qual é a sensação de presenciar esse momento?
Isis Magalhães: Primeiro, é uma sensação de missão cumprida; iniciamos com o objetivo de melhorar a qualidade do tratamento de crianças com câncer. Depois, entendemos que tínhamos que manter juntas as especialidades pediátricas. Por mais que levasse muito tempo, faríamos uma estrutura mais tecnicamente correta, porque, assim, garantiríamos a integralidade da assistência. Com todas as especialidades juntas, otimizaríamos recursos e conseguiríamos alcançar o maior número de crianças possível. O aniversário de 10 anos é o momento em que aquele sonho se concretiza, mas também é um momento no qual temos de pensar em passar todos esses valores para as gerações futuras, para que consigamos manter esses valores, de procurar qualidade e dar acesso às nossas crianças aos melhores meios de diagnósticos. É um processo contínuo. Missão cumprida de chegar até aqui, mas essa missão não termina – na verdade, ela se perpetua.
HCB: Como a senhora avalia esses 10 anos de funcionamento do Hospital?
Isis Magalhães: Foi de muito aprendizado, de uma outra área que não conhecíamos muito. Estávamos ligados na ciência, na técnica médica, mas precisávamos entender de estrutura hospitalar, de gestão hospitalar e contamos com um corpo de gestores competentes que fizeram a concretude do nosso sonho. Se chegamos até aqui, devemos prestar tributos a todo esse grupo de gestores que nos guiou nesses 10 anos.
HCB: A senhora imaginava que o Hospital completaria 10 anos com tantos resultados positivos, sobretudo com a boa avaliação dos usuários?
Isis Magalhães: Eu fico feliz, mas ao mesmo tempo sinto uma grande responsabilidade, porque temos que ir além. Sempre temos que ter essa busca de melhora contínua: sempre podemos fazer melhor, melhorar o processo, estar mais atentos à experiência do usuário. A nossa sensibilidade de entender o paciente vai melhorando com o passar do tempo. Então, acho que ainda temos muito a fazer e a melhorar.
HCB: Em quais aspectos o HCB pode evoluir?
Isis Magalhães: Temos que conseguir passar, para as novas gerações, esse zelo e cuidado com a coisa pública. A determinação e a perseverança de fazer o melhor dentro do serviço público, cuidando ao mesmo tempo da sustentabilidade. Temos que ter a certeza de que essas famílias, na hora que chegarem aqui no Hospital, se sintam em um porto seguro e saibam que aqui tem uma equipe que entende das doenças dos seus filhos, por mais raras que sejam. Nós estamos sempre em busca do conhecimento, de entender o que a ciência vai disponibilizando e buscando meios de trazer isso ao Hospital, para permitir que as crianças tenham acesso a novas tecnologias e novos meios de diagnóstico. Essa é a nossa missão daqui para frente.
Texto: Augusto Fernandes
Foto: Maria Clara Oliveira