Hospital da Criança de Brasília fortalece assistência onco-hematológica com workshop sobre Ciência da Melhoria
11/03/2026
O Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) realizou o workshop de Ciência da Melhoria direcionado a profissionais de diversas especialidades, incluindo lideranças e funcionários que atuam na linha de frente no cuidado e acolhimento aos pacientes pediátricos com câncer e doenças hematológicas. A iniciativa integra a estratégia institucional de qualificação contínua da assistência, estruturada a partir de cooperação técnica com o St. Jude Children's Research Hospital, em parceria com o Institute for Healthcare Improvement (IHI).
Organizado em duas sessões realizadas no dia 6 de fevereiro, a ação resulta da avaliação denominada PrOFILE (Pediatric Oncology Facility Integrated Local Evaluation, na sigla em inglês), conduzida pelo St. Jude, que realiza diagnóstico 360º graus sobre a assistência oncológica pediátrica. A metodologia associa diagnóstico organizacional à oferta de formação estruturada e ferramentas operacionais para implementação de mudanças sustentáveis. A partir desse processo, o HCB passou a integrar as etapas formativas do programa Post-PrOFILE, organizadas em ciclos progressivos denominados “ondas”.

Os cursos contemplam formação básica, intermediária e avançada em Ciência da Melhoria, incluindo capacitação de especialistas enquanto líderes, mentores e analistas de dados no contexto da Ciência da Melhoria. Funcionários do hospital participaram dessas formações, inclusive em modalidade presencial realizada em Memphis, nos Estados Unidos, com foco no aprendizado de mentoria e em análise e interpretação de dados aplicados à melhoria contínua da qualidade assistencial.
Conforme a gerente de Qualidade e Segurança do Paciente do HCB, Laise Moreira, o Hospital da Criança de Brasília é uma unidade de Saúde do Distrito Federal que já possui consolidada cultura da melhoria contínua. O HCB é o único hospital público pediátrico do Centro-Oeste a possuir a certificação de Acreditado com Excelência ONA 3, nível máximo de avaliação de qualidade e segurança assistencial conferido pela Organização Nacional de Acreditação.
Para ela, o workshop reforça a vocação institucional de olhar criticamente para seus processos de trabalho e resultados. "O nível 3 da metodologia da ONA fala que é a etapa da melhoria contínua, ou seja: eu já tenho uma estrutura, eu tenho processos desenhados e eu tenho resultados identificados. A partir desses resultados que temos hoje, o que conseguimos melhorar? Como melhoramos? Então, a partir dos resultados assistenciais, técn
A capacitação promovida no HCB integra a chamada "estratégia de dosagem” (Dosing Strategy) do conhecimento, modelo pedagógico proposto pelo St. Jude em articulação com o IHI para expansão gradual da competência institucional. O princípio consiste em formar inicialmente um grupo estratégico, que passaria a multiplicar internamente os fundamentos metodológicos, garantindo autonomia progressiva na condução de projetos de melhoria.
A atividade reuniu lideranças e membros das equipes da enfermagem, oncologia médica, farmácia, qualidade, pedagogia hospitalar e reabilitação, reforçando o caráter transversal da metodologia. A proposta é que a melhoria seja pensada a partir da jornada completa do paciente, promovendo integração entre áreas assistenciais e administrativas. Para a gerente de Ensino do HCB, Gabriela Branco, essa transversalidade é essencial para a sustentabilidade dos resultados. “A ciência da melhoria precisa ser feita de forma transversal, com o conhecimento multidisciplinar para que você, de fato, consiga abarcar a jornada do paciente no sistema e não apenas uma área. Então, por isso, esse olhar multidisciplinar, essa integralidade do “olhar” acaba sendo abarcada no próprio treinamento”, destaca a gerente.

Sustentabilidade dos resultados e qualificação da experiência do paciente
Durante o encontro, foram aplicadas ferramentas clássicas da Ciência da Melhoria, com ênfase no Diagrama de Causa e Efeito (Ishikawa) e na Matriz de Priorização por Impacto e Esforço. A partir de um cenário estruturado para fins didáticos, os participantes mapearam falhas processuais, identificaram causas-raiz e simularam intervenções, avaliando viabilidade e potencial de impacto. A próxima etapa prevê a aplicação dessas ferramentas a problemas reais identificados nas áreas de atuação dos participantes, com acompanhamento técnico pelas facilitadoras internas.
Conforme explica a enfermeira de Educação Continuada, Heloísa Gabriel, do ponto de vista da metodologia, a Ciência da Melhoria se ancora em três questões centrais: o que se pretende melhorar, como mensurar se houve melhoria e quais mudanças podem produzir resultados consistentes. Nesse contexto, a utilização sistemática de dados é considerada como um pilar estruturante. A melhoria somente é reconhecida quando indicadores demonstram variação estatisticamente relevante e sustentada ao longo do tempo, reduzindo a subjetividade na avaliação de resultados. “Eu preciso mensurar, preciso ter um diagnóstico do que está acontecendo através de dados, e, com isso, acompanhar ao longo do tempo para ver se está acontecendo realmente uma melhoria. Para ter uma mudança, ele precisa ter uma queda significativa, um aumento significativo e que ele seja sustentável”, explica.
No âmbito da oncologia pediátrica, o HCB já desenvolveu projetos vinculados às ondas formativas anteriores, como o aprimoramento do processo de administração de quimioterapia e a implementação de mecanismos de monitoramento do acompanhamento de pacientes em tratamento. Novas iniciativas estão em fase de planejamento, incluindo estratégias para qualificação do tempo de espera como oportunidade de educação em saúde.
Segundo as profissionais responsáveis pela condução do workshop, a consolidação da Ciência da Melhoria requer mudança cultural. A proposta não consiste em acrescentar tarefas à rotina dos gestores, mas em estruturar metodologicamente ações que já fazem parte do exercício da liderança.
“Eu acho ideal nós termos estratégias para ter o mínimo possível de problemas e eventos adversos. Um líder está sempre implementando melhorias na sua área, então, por meio das ferramentas e da metodologia da Ciência da Melhoria, a chance de a instituição ter melhorias sustentadas é muito maior, porque há um gerenciamento daquele plano: tanto para projetos menores, de entregas mais rápidas, quanto para projetos maiores que demandam mais energia e maior envolvimento das equipes.
O nosso objetivo é fazer com que o senso crítico proposto pela Ciência da Melhoria seja uma rotina cada vez mais presente em todos os processos do Hospital”, diz a especialista em Enfermagem Onco-hematológica do HCB, Priscila Mendes.
Os encontros terão continuidade mensal, com monitoramento dos projetos estruturados pelos participantes. A expectativa é fortalecer um núcleo interno capaz de conduzir ciclos de melhoria de forma autônoma, alinhado às melhores práticas internacionais em qualidade e segurança do paciente.
Com a iniciativa, o Hospital da Criança de Brasília reafirma sua posição como instituição pública de referência em onco-hematologia pediátrica no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), integrando assistência especializada, formação profissional e gestão orientada por evidências na qualificação da experiência e dos desfechos clínicos dos pacientes.

Fotos e texto: Sckarleth Martins