Rádio Dodói fala sobre o sistema digestivo

07/05/2020

A diretora clínica do Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) e gastroenterologista pediátrica Elisa Carvalho participou da segunda temporada da Rádio Dodói. Em entrevista ao podcast, ela fala sobre algumas doenças tratadas em sua especialidade e conta qual o diferencial do HCB em relação a outras unidades voltadas ao cuidado pediátrico.

HCB: Quais são as doenças tratadas pela gastroenterologia e pela hepatologia mais frequentes?

Elisa de Carvalho: Costumo falar que a gastroenterologia é uma especialidade bem pediátrica, porque abrange temas muito comuns que a criança apresenta: a dor abdominal, a constipação intestinal (que é o intestino preso), a criança com doença do refluxo gastroesofágico, a criança que não come, os problemas nutricionais – são temas muito comuns do dia a dia da criança e do adolescente.

O Hospital da Criança de Brasília é um hospital de referência para as doenças de maior complexidade. Aqui, o foco são as doenças de maior gravidade ou aquelas que exigem maior estrutura e maior aspecto técnico tanto para o diagnóstico, quanto para o tratamento do paciente. Então o foco, aqui, são principalmente as doenças hepáticas e as doenças inflamatórias intestinais: doença de Crohn, colite ulcerativa, bem como outras como as alergias alimentares, doenças de pâncreas, doença celíaca (que tem relação com o glúten), doenças no esôfago, malformações.

HCB: A quais sinais os pais devem prestar atenção para chegar à conclusão de que precisam levar o filho a um hospital de referência, para descobrir qual é o problema de saúde dele?

Elisa de Carvalho: Nós temos uma campanha chamada Campanha do Alerta Amarelo, sobre a icterícia, que é quando a pele e o olhinho ficam amarelos. Ela é comum nos primeiros dias de vida e, na maioria das vezes, é fisiológica – ou seja, ela é normal da criança. Mas as crianças que têm doença do fígado, especialmente uma que chama atresia biliar, também manifestam esse tipo de Icterícia. Como é comum e na maioria das vezes fisiológica, muitas vezes esse é um sinal clínico que é meio negligenciado, não é tão valorizado na prática clínica. Então, nós chamamos atenção de que se a icterícia tiver duração maior ou igual que 14 dias de vida, a urina estiver escura ou se as fezes estiverem esbranquiçadas, os pais têm que procurar uma assistência médica. O diagnóstico precoce influencia na qualidade de vida, na sobrevida desses pacientes, então esse é o alerta que fazemos.

HCB: No caso de ser uma criança maior, um sinal importante seria hepatite, por exemplo?

Elisa de Carvalho: Nas crianças maiores, há uma variedade muito grande de manifestações, porque depende da doença: se é hepatite autoimune, ou se é a doença de Crohn, se é uma colite ulcerativa. Vai depender da gravidade, mas por exemplo: das doenças inflamatórias intestinais, tem pacientes que a gente recebe e que já estão com a doença avançada, com formação de fístulas.

Então, se é uma criança que não vai bem, se ela não está crescendo, se não está se desenvolvendo, se ela tem uma diarreia que dura mais do que 30 dias (que a gente já considera uma diarreia crônica) – isso são sinais de alerta para as doenças inflamatórias, para a doença celíaca.

Outra doença que a gente considera nova, que foi descrita não faz muito tempo, é chamada de esofagite eosinofílica. Um sinal de alerta é impactação de alimento: a criança vem evoluindo com uma clínica semelhante à doença do refluxo, mas começa, na hora da deglutição, a precisar de água para ajudar a engolir o alimento. Essa impactação, essa dificuldade de deglutição, é um sinal de alerta.

HCB: Essas doenças que a senhora citou têm cura?

Elisa de Carvalho: Existem, ainda hoje, doenças (da gastroenterologia, da hepatologia e relacionadas à nutrição) que não têm cura, mas a maioria tem. Para aquelas que não têm, a gente pode melhorar a qualidade de vida e a sobrevida, então a gente sempre tem alguma coisa a fazer pelo paciente. Por exemplo, às vezes você não fala em cura, mas fala em remissão da doença. Você controla a doença do paciente e, com isso, permite uma sobrevida grande.

Nas doenças hepáticas, se você não consegue o controle da doença ou a cura, você tem a opção do transplante hepático. Hoje, nós já temos mais de 50 crianças aqui, em acompanhamento, que foram transplantadas. Elas hoje transplantam em São Paulo, mas voltam logo depois do transplante e continuam o acompanhamento aqui. São crianças que têm uma ótima qualidade de vida, mas o objetivo é que a gente comece a fazer o transplante hepático no Hospital da Criança de Brasília – e outros também, como de medula e de rim. Nós estamos numa fase de organização, de treinamentos de equipe e de organização de toda a estrutura e material necessário, mas já estamos caminhando nesse caminho e esperamos fazer os de fígado em breve.

HCB: O Hospital da Criança de Brasília apresenta algum tipo de diferencial de tratamento em relação a outros hospitais que também atendem crianças e adolescentes?

Elisa de Carvalho: O que a gente busca no Hospital da Criança de Brasília é fazer assistência, ensino e a pesquisa. É importante assistir bem o paciente, mas é importante formar novos profissionais para dar continuidade ao trabalho e às pesquisas, para descobrir os novos conhecimentos – e a publicá-las, para ter essa interlocução com outros serviços; temos esses três pilares.

A gente busca não só a técnica, mas também a ética e a humanização do atendimento. Esse, eu acho que é um diferencial; a gente tenta ver a integralidade da criança e do adolescente. Não só da doença em si, mas a integralidade – e aí vem uma equipe interprofissional, que inclui não apenas o médico, mas a enfermagem, psicologia, nutrição, assistência social. Também tentamos trazer mais alegria, mais humanização nesse dia a dia do paciente – várias ações já foram feitas, até trazer um cavalo para dentro do Hospital! Então o que a gente busca é isso, trazer um ambiente mais lúdico e de mais alegria não só para a criança, mas na integralidade, tendo a família como elo assistencial.

HCB: Qual é o principal desafio da sua área, hoje, aqui dentro do Hospital?

Elisa de Carvalho: Eu acho que quando a gente busca fazer um serviço público de qualidade, a gente tem muitos desafios; mas eu falaria não como um desafio; o nosso principal objetivo é fazer um serviço público de qualidade e de referência no Brasil.