Diálise em foco na Rádio Dodói

19/05/2020

O Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) acompanha crianças e adolescentes com doenças renais que precisam passar por terapias como a hemodiálise e a diálise peritoneal. Em entrevista à Rádio Dodói, o nefrologista do HCB Pedro Mendes fala sobre esses procedimentos.

HCB: Você pode explicar, didaticamente, o que é a hemodiálise?

Pedro Mendes: A diálise é considerada uma terapia renal substitutiva. O que é isso? Para aquelas pessoas em quem, por algum motivo, o rim não funciona mais como deveria – ou seja, que está funcionando em menos de 15% –, eu preciso de uma modalidade que consiga substituir as funções dele. Pode-se fazer a hemodiálise – com aquela máquina que vai, por uma linha, puxar o sangue da pessoa, filtrar, limpar todo o sangue e devolver sem substâncias tóxicas, sem o excesso de líquido; corrige exatamente o que o rim faria.

Há também a diálise peritoneal; é uma modalidade muito usada na pediatria, até mais do que a hemodiálise, e a pessoa faz em casa. Uma máquina infunde soro na barriga da criança e depois puxa esse soro; o soro que fica parado na barriga vai limpando o sangue, porque fica em contato com os vasos sanguíneos. Então, temos essas duas modalidades: tanto a terapia que é feita no Hospital, na clínica de diálise, quanto essa terapia que é feita em casa e executada pelo próprio familiar.

HCB: A hemodiálise e a diálise são necessárias só uma vez ou são tratamentos para a vida inteira?

Pedro Mendes: De maneira geral, temos dois tipos de indicações para a diálise: a indicação aguda e a crônica. O paciente que é agudo é aquela pessoa que tem o rim totalmente saudável e por algum motivo, ele ficou momentaneamente danificado – por uma infecção grave, uma medicação que era muito forte e afetou o rim. Nesses casos, se faz a hemodiálise por um período curto, enquanto o rim vai se recuperando. Então ele pode fazer uma, duas, dez sessões e recuperar. Já no caso do renal crônico, é aquela criança ou aquele adulto com alguma doença crônica que foi danificando o rim ao longo do tempo. O rim deixa de funcionar em caráter permanente, então, nesses casos, então faria a diálise pela vida toda.

HCB: Em que casos são necessários transplantes?                                

Pedro Mendes: Existe uma ideia equivocada de achar que o transplante é para casos terminais. Isso é muito comum com outros órgãos, como fígado e coração. No rim, o transplante é mais um tipo de terapia renal substitutiva. Então, no momento em que está indicada a diálise – seja a hemodiálise ou a diálise peritoneal –, o transplante também já está indicado. Nossa função como nefrologista é, assim que recebemos o paciente renal crônico para a diálise, já encaminhá-lo de imediato para o centro transplantador, porque na hora que ele começa a fazer a terapia, já tem indicação para ser submetido ao transplante.

HCB: Crianças que passam por essas terapias (diálise e hemodiálise) podem ter uma vida normal?

Pedro Mendes: Digamos que não é normal, mas está longe de ser o mito de que vai colocar aquela criança em uma bolha para não ter contato com nada da infância normal. É preciso ter alguns cuidados. Fazendo uma analogia: é igual a alguém que tem diabetes, que deixa de comer açúcar, mas tem uma vida normal. Então, o renal crônico precisa ter um certo cuidado com a ingestão de líquidos; ele não pode ingerir muito frutas que têm muito potássio; evitar comer muita proteína, por causa do fósforo.

No geral, pode frequentar a escola, ter seu círculo social, fazer coisas que qualquer criança, com alguns cuidados extras. O que atrapalha um pouco mais, em especial na hemodiálise, é que você tem que tirar algumas horas no dia para vir à unidade fazer sua terapia – que, normalmente, é executada três vezes por semana, com duração de duas horas e meia até quatro horas, dependendo do quadro da pessoa. Então, infelizmente ela perde esse horário; mas ela pode encarar aquilo como se fosse um curso de inglês que ela faz, que também precisa tirar aquelas horas. Fora isso, é uma vida muito próxima do normal.

HCB: E a diálise que é feita em casa, quanto tempo leva?

Pedro Mendes: A grande vantagem da diálise feita em casa é que, normalmente, ela é executada à noite. Dura dez ou oito horas, mas no período noturno, onde o paciente já vai se deitar para dormir; ele fica ligado à máquina, que nós chamamos de cicladora, enquanto dorme. Então, a grande vantagem é que interfere menos no dia a dia, na rotina. Isso permite que a criança, que está em fase escolar, frequente a escola de maneira mais assídua.

Em compensação, a família é mais participativa, porque na hemodiálise o paciente vem aqui e tem toda a equipe para realizar o processo. Na diálise peritoneal, a família é treinada; é ela que toma conta do processo. É extremamente seguro, o risco de infecção é baixo, mas precisa dessa participação, do cuidado de todos os envolvidos com a criança.

HCB: Quais são as recomendações para as famílias, além dessas que o senhor já citou?

Pedro Mendes: As recomendações em relação à terapia: ter cuidado, principalmente porque quem faz qualquer uma das duas modalidades tem o que chamamos de acesso, que é o local por onde eu vou conseguir conectar os aparelhos. No caso da hemodiálise, normalmente eu uso um cateter, que é ligado em uma veia. A criança tem que ter cuidado em relação a banhos porque, se molhar o cateter, pode contaminar. E no caso da diálise peritoneal, o cateter fica próximo ao umbigo, que também não pode ficar submerso na piscina. Com alguns cuidados de higiene básicos, o paciente consegue se cuidar e se prevenir da principal complicação, que é a infecção.

HCB: Quais são as recomendações para as crianças e adolescentes que não têm necessidade de realizar a diálise e a hemodiálise?

Pedro Mendes: As recomendações, de maneira geral, são sobre hábitos de vida saudáveis. Manter a prática de atividades físicas, uma dieta adequada, evitar o consumo indiscriminado de açúcar, sal – evitar docinhos, salgadinhos, esses tipos de coisas.

Aqueles que têm algum histórico familiar de hemodiálise, ainda mais quando são doenças hereditárias, devem fazer exames de forma mais precoce possível, começar o acompanhamento cedo. Para a criança que já desenvolveu diabetes tipo 1: cuidar, porque a diabetes é uma das principais causas; quando vai chegando na vida adulta, é a principal causa da diálise. Então precisa fazer o controle muito rigoroso desde cedo, cuidar da glicemia de maneira adequada.

Para aqueles que têm hipertensão: apesar de não ser tão comum, quem já recebeu o diagnóstico e tem histórico familiar muito rigoroso de pressão alta precisa cuidar da pressão muito bem. Para aqueles que têm alguma alteração na via urinária, nasceram com uma má formação: sempre ter o acompanhamento médico, não faltar às consultas, porque é uma doença que precisa de prevenção.

Infelizmente não existe um tratamento curativo: tem a substituição com as máquinas e o próprio transplante, que é uma substituição. O importante é se cuidar, frequentar o médico e, sempre que possível, fazer um exame que se chama creatinina e permite calcular quantos por cento o seu rim funciona. É um exame simples, básico, qualquer hospital da Secretaria de Saúde do DF tem, está disponível para todos. Com uma simples coleta de sangue, eu consigo saber exatamente qual o grau de funcionamento do seu rim, e, com isso, cuidar de forma precoce.