Criança que passou por transplante de medula óssea encontra doador no HCB
16/12/2025

Maria Cecília Freitas (foto acima) tinha dois anos quando passou por um transplante de medula óssea. Diagnosticada com anemia de Blackfan-Diamond, ela é acompanhada pela equipe de oncohematologia do Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) e teve grandes melhorias na saúde depois de passar pelo procedimento. Os pais contam que a doação salvou a vida da menina, mas não conheciam a pessoa que tornou isso possível – até este ano, quando Maria Cecília, já com cinco anos de idade, chegou ao HCB acompanhada pela família para encontrar o doador.
Valdiomar de Lima Júnior (foto acima, de preto), 41 anos, decidiu se cadastrar no Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome) no mesmo ano em que Maria Cecília nasceu. Habituado a doar sangue, o morador de Jataí (GO) recebeu a ideia de uma funcionária do Hemocentro de sua cidade. “Tem uns cinco anos que me cadastrei. Eu ia lá só para doar sangue; numa dessas doações, a moça da recepção falou da medula e perguntou se eu tinha interesse de colocar o nome, porque aí ela tirava um pouquinho de sangue a mais e punha no sistema. Eu disse ‘pode pôr!’”, conta. Para estimular outras pessoas a tomarem a mesma decisão que Valdiomar, o Brasil instituiu, em 2009, a Semana de Mobilização Nacional para Doação de Medula Óssea, realizada de 14 a 21 de dezembro.
A escolha de Valdiomar de se tornar doador seria extremamente importante para a família de Maria Cecília, que nasceu em Sobradinho (DF). “Sempre sonhei em ser mãe, sempre quis ter uma filha. Em 2019, eu engravidei e ela veio”, recorda Bruna de Freitas (foto abaixo), mãe da menina. Percebendo os primeiros sintomas da filha dois meses depois do nascimento, ela procurou atendimento para a criança: “Ela chorava muito e ficava muito pálida, porque a hemoglobina dela caía. Depois de dois meses em Sobradinho, viemos para o Hospital da Criança de Brasília; a doutora já me deu o diagnóstico e falou que era possível fazer o transplante”. A partir dessa notícia, Maria Cecília começou a ser tratada no HCB enquanto era feita uma busca por um doador compatível.

Busca por compatibilidade em registro nacional
Gerido pelo Ministério da Saúde e apoiado pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome) é responsável por cruzar os dados de pacientes e doadores para verificar se o transplante é viável. Quando recebeu o contato do Redome avisando de uma possível compatibilidade, Valdiomar deu início a uma série de exames de sangue e consultas médicas, feitos tanto no Goiás quanto em Minas Gerais, onde teve sua medula coletada. “O procedimento foi dos mais simples: entrei na sala de cirurgia, saí, no outro dia fui para casa. Prefiro doar medula que ir ao dentista!”, brinca.
Enquanto Valdiomar voltava para Jataí, sua medula viajava até São Paulo – na época, o Hospital da Criança de Brasília ainda não era habilitado para realizar transplantes de medula óssea alogênico (com medula doada por outra pessoa) e o procedimento foi realizado no Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graacc). Lá, Maria Cecília já estava à espera da doação.
Bruna foi acompanhante da filha durante todo o processo. Segundo ela, o período foi de altos e baixos, mas logo a menina foi liberada para voltar para o Distrito Federal – e para o HCB. “Passamos pelo transplante, ela passou por um estado delicado. No período crítico, eu até falava que iam ter que ligar para o doador, para ele vir doar mais! No final, deu tudo certo”, relembra.

O encontro entre paciente e doador foi repleto de emoção: Maria Cecília foi acompanhada pelos pais, avós e primo; Valdiomar também levou a família, que torcia pela saúde da menina. Todos puderam conversar e contar seu lado nessa história de sucesso e a equipe do Hospital da Criança de Brasília também participou do momento, compartilhando da felicidade.
Desde o transplante, Maria Cecília segue em acompanhamento ambulatorial, passando por consultas e exames. Vendo a filha feliz, brincando, Bruna expressou sua gratidão tanto pela doação de Valdiomar quanto pela dedicação da equipe do Hospital da Criança de Brasília: “Quero agradecer vocês do fundo do meu coração, porque quem faz é Deus, mas ele usa as pessoas e usou vocês para salvar a vida da minha filha. Ela é tudo que eu tenho de mais valioso”.

Mais de 160 transplantes realizados
O Hospital da Criança de Brasília José Alencar realiza transplantes de medula óssea desde 2019. Inicialmente, a unidade fazia apenas os procedimentos autólogos, em que a medula é proveniente do próprio paciente. Em 2020, o HCB fez o primeiro transplante com medula proveniente de doador da família da criança em tratamento; em 2024, o Hospital também passou a fazer o transplante não aparentado – casos semelhantes ao de Maria Cecília e de Valdiomar.
De 2019 até novembro de 2025, foram realizados 162 transplantes de medula óssea (englobando as três modalidades). O HCB conta com equipe multidisciplinar e especializada neste tipo de procedimento, além de ser acompanhado por profissionais do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS).
A parceria contempla treinamentos imersivos e troca de dados entre as duas instituições de saúde. A capacitação contribui para a melhoria contínua do serviço no HCB, trazendo mais resultados positivos para as crianças que precisam deste tipo de tratamento.
Como doar
Para que outras histórias de sucesso como a de Maria Cecília possam acontecer, é importante que mais pessoas se tornem doadoras voluntárias de medula óssea. O cadastro como doador é feito presencialmente no Hemocentro: o voluntário precisa ter entre 18 e 35 anos de idade, levar um documento de identificação oficial com foto e estar em bom estado geral de saúde.
Outras informações, como a lista de condições de saúde que impedem o cadastro, estão disponíveis no site do Redome: https://redome.inca.gov.br/doadores/#comoSerDoador
Texto: Maria Clara Oliveira
Fotos: Sckarleth Martins