Auditoria clínica no HCB: capacitação em metodologia tracer aprimora a segurança do paciente e a gestão em saúde

22/05/2026

O Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) deu início a uma nova etapa no fortalecimento de seus processos de qualidade e segurança assistencial. No dia 18 de maio, a unidade da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) realizou uma capacitação voltada para aprimorar a auditoria clínica com o uso da metodologia tracer (ou método rastreador). Com o objetivo de diminuir a distância entre o que determinam os manuais teóricos e o cuidado que efetivamente chega aos leitos, lideranças e profissionais da​ assistência revisitaram práticas de monitoramento com foco na experiência direta do paciente.

Diferente dos modelos tradicionais de auditoria, focados majoritariamente no preenchimento de conformidades em prontuários de forma retrospectiva, o método tracer propõe uma avaliação contínua e em tempo real. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o rastreamento da jornada do paciente reduz drasticamente a incidência de eventos adversos na assistência hospitalar, que chegam a atingir cerca de 10% dos pacientes internados no mundo, segundo estimativas globais de segurança do paciente da OMS.

 

 

Governança clínica e corporativa em sintonia

A metodologia reforça um modelo em que a gestão administrativa caminha em paralelo com o rigor científico do cuidado. Segundo o médico Alexandre Bomfim, responsável por ministrar o treinamento, a maioria das instituições de saúde já possui uma estrutura consolidada de governança corporativa, voltada para a administração. O desafio atual reside no amadurecimento da governança clínica.

"A governança clínica ainda está ​'engatinhando​', está se desenvolvendo​, e um pilar fundamental é​ a auditoria clínica. É você saber se aquilo que está previsto para aquele paciente, para aquele caso, está sendo implementado na sua plenitude", explica Bomfim.

O médico ressalta que esse diagnóstico se dá na prática: avaliando prontuários, mas​ também​ dialogando com ​funcionários, familiares e com as próprias crianças. Os dados tabulados servem para identificar falhas entre a teoria e a realidade. "E isso é fundamental​ para que a gente consiga corrigir de forma a trazer uma assistência cada vez mais segura, mais completa e uma melhor experiência para as pessoas que ficam aqui no Hospital da Criança", complementa. Bomfim também enfatiza que a postura do auditor deve se afastar do caráter punitivo, alinhando-se a diretrizes internacionais da OMS que enxergam a auditoria como ferramenta de aprendizado institucional e participação ativa do paciente.

A visão sistêmica gerada pelo método permite que diferentes setores do hospital dialoguem melhor, eliminando ruídos de comunicação que põem em risco a segurança assistencial. No Centro Cirúrgico, por exemplo, o rastreamento da linha de cuidado já trouxe resultados práticos em ciclos anteriores.

Alison Guimarães, supervisor de enfermagem do Centro Cirúrgico do HCB, relembra que o hospital teve contato com o projeto do tracer há cerca de três anos, o que resultou em melhorias de segurança significativas. Para ele, o treinamento atual reforça a necessidade dessa perspectiva integrada: "Quando você tem uma visão mais ampla da jornada do paciente no hospital, você consegue entender cada área e trabalhar para que as áreas se conversem, de uma forma segura para o paciente e para o profissional".

Para a gerente de Qualidade e Segurança do Paciente do HCB, Laise Moreira, o treinamento é uma oportunidade de reeducar as equipes e atualizar os checklists e itens avaliados no dia a dia d​o hospital. A capacitação envolveu tanto a alta gestão​, responsável por​ multiplicar o conhecimento​, quanto referências assistenciais da equipe multiprofissional, incluindo profissionais da farmácia, nutrição​, enfermagem, medicina e fisioterapia.

"A gente vai ter a oportunidade de olhar com os olhos do paciente​. Então, entender aquilo que ele está vendo, aquilo que ele está recebendo de cuidado ali na assistência. Com isso a gente vai conseguir se colocar no lugar dele, na experiência deles", aponta a gerente.

 

 

Maturidade de gestão e o propósito do SUS

A evolução do modelo de avaliação​, que migra de indicadores puramente estáticos para a análise ​presencial, é vista pela diretoria do HCB como um salto de maturidade institucional para este ano. O acompanhamento em tempo real valida se a integração dos serviços de saúde está ocorrendo com fluidez no cotidiano​ da unidade de saúde.

A médica e diretora técnica do HCB, Isis Magalhães, destaca que o uso dessa metodologia sistemática apoia a vocação original com a qual o hospital foi fundado.​ "​O Hospital da Criança nasceu com esse objetivo: entregar uma atenção integral e de qualidade dentro do SUS. Então, desde seu nascedouro, esse já era o sonho, o propósito. ​N​ós usamos essa metodologia para nos ajudar com o método a saber avaliar, nos avaliar", afirma Magalhães. Ela ainda reforça que a aplicação prática exige que o hospital crie planos de ação estruturados para cada ponto de melhoria identificado, gerando um ciclo constante de monitoramento de resultados. "Realmente vai exigir da equipe um outro esforço de aprendizado para essa nova avaliação desse ano de 2026, mas eu acho que é para um bom propósito, eu acho que isso vai aumentar a nossa maturidade", conclui.

 

 

Fotos e texto: Sckarleth Martins