3º Encontro do Brincar no HCB debate o brincar livre como direito e ferramenta para a promoção da saúde infantojuvenil
03/06/2026
O Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) realizou a terceira edição do Encontro do Brincar, na sexta-feira (29/05/2026). O evento técnico-científico reuniu profissionais da saúde, educação, brinquedistas e estudantes para discutir a importância do ato de brincar na infância e seus reflexos na idade adulta, em celebração ao Dia Internacional do Brincar (28/05).
Na abertura das atividades, a diretora executiva do HCB, Valdenize Tiziani, relembrou a evolução histórica da criança como sujeito de direitos e destacou a mudança de paradigma dentro da medicina. Segundo a diretora, historicamente, o saber médico priorizava o diagnóstico em detrimento da identidade do paciente. "Em reuniões de caso clínico, era comum a equipe se referir ao paciente pela patologia e pelo leito, em vez de usar o nome da criança. Não se levava em consideração quem era aquele sujeito, seus sonhos e desejos", contextualizou Tiziani.
Hoje, o HCB fundamenta suas práticas em diretrizes legais de proteção, como a Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o artigo 31º da Convenção sobre os Direitos da Criança das Nações Unidas.
A abordagem científica sobre o tema também pauta a maneira como o hospital desenha a jornada do cuidado dos pacientes. A gerente de Pesquisa do HCB, Cristiane Salviano, ressaltou que a instituição trata o lúdico com rigor técnico. O hospital conta com uma arquitetura planejada e serviços estruturados para que o brincar seja um indutor do desenvolvimento infantil, integrando a ‘ciência do brincar’ à rotina hospitalar. Atualmente, o HCB dispõe de oito brinquedotecas: cinco localizadas nas alas de internação (Golfinho, Baleia, Tartaruga, Gaivota e Caranguejo) e três nos ambulatórios (Pampa, Pantanal e Sertão), com livre acesso a pacientes e familiares.

Brinquedotecas e a construção da cidadania
A conferência de abertura, intitulada: "O papel do brincar no ambiente hospitalar de crianças e adolescentes", foi ministrada por Maria Célia Malta Campos, doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP) e presidenta da Associação Brasileira de Brinquedotecas (ABBri). A palestrante defendeu a universalização do acesso ao “brincar livre, em todos os lugares e para todos”. Para ela, a criança utiliza a brincadeira para elaborar e evocar experiências vividas, já o adulto e o idoso, utilizam o lúdico como ferramenta de projeção e criatividade. "O adulto pode viajar para outro planeta, ir para o futuro, devanear", explicou.
Campos enfatizou que é na brincadeira que a criança constrói sua própria identidade, sem imitar o comportamento adulto. Para ela, a brincadeira é o primeiro ‘laboratório de cidadania’, porque é por meio dos jogos e interações que se aprende a tomar decisões coletivas, respeitar o espaço alheio, exercer o direito de fala e responsabilizar-se pelas próprias ações.
Conforme a especialista, marcos legais recentes, como o Marco Legal da Primeira Infância (Lei nº 13.257/2016) e a Parentalidade Positiva (Lei nº 14.826/2024), têm pressionado os agentes públicos a estruturarem políticas para essa fase da vida. A professora criticou a visão utilitarista da sociedade, que tende a desvalorizar atividades que não geram produtividade imediata. "Quando pensamos em qualidade de vida e saúde mental e física, o brincar assume outro valor. O hospital funciona como uma ‘bolha’ que desafia essa ideologia social", afirmou Campos, defendendo a formação técnica rigorosa para quem atua no setor.

Práticas integradas de humanização no HCB
O evento promoveu ainda uma mesa-redonda mediada por Lucy Marina Oliveira, assistente de Promoção da Saúde do Instituto do Câncer Infantil e Pediatria Especializada (Icipe), Organização Social de Saúde (OSS) gestora do HCB. O debate reuniu especialistas de diferentes áreas para discutir a intersetorialidade no cuidado pediátrico e o compromisso com a infância repleta de cultura e lazer, também.
A médica coordenadora de Pneumologia Pediátrica do HCB, Luciana Monte, compartilhou os resultados do projeto "Na Pontinha do Pé", que desde 2016 leva sessões de balé clássico com voluntárias ao hospital. A médica destacou a necessidade de adotar a linguagem lúdica para estabelecer vínculos terapêuticos eficazes. "Foi a necessidade de me comunicar com a criança que me fez usar a criatividade, a música e o balé. Eu explicava que o oxigênio era como se fosse um 'elefante' para que o paciente aceitasse a máscara de forma leve", relatou.
A integração entre as equipes assistenciais e a pedagogia hospitalar foi o ponto central da intervenção de Lorena Borges, gerente da Linha de Cuidado ao Paciente Oncohematológico. Borges explicou que a ambientação do HCB é utilizada estrategicamente para preservar a identidade da criança durante o tratamento, adequando as ações educativas a cada fase do desenvolvimento.
Na área de reabilitação física, o terapeuta ocupacional Tulio Medina demonstrou como o ambiente externo do hospital pode se transformar em recurso terapêutico. Ao propor charadas e a criação de histórias baseadas no cenário ao redor, o profissional estimula a imaginação e as funções motoras dos pacientes mesmo sem o uso de aparelhos convencionais.
Fechando as discussões, Fabíola Gonzaga de Freitas, gerente da Atenção às Aprendizagens da Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEEDF), apresentou o panorama das Classes Hospitalares, que atuam em parceria com a SES-DF para garantir a continuidade do atendimento pedagógico dos estudantes internados. Conforme a especialista, a iniciativa dialoga com as diretrizes do Currículo em Movimento e com o projeto Plenarinha, que introduz conceitos de participação política e controle social desde a educação infantil.

Fotos: Maria Clara Oliveira
Texto: Sckarleth Martins