Verdades e carinho na luta contra o câncer

05/08/2012

Estudo da USP ressalta a importância de as crianças com tumores malignos saberem a que tratamento são submetidas e de manterem uma relação próxima com médicos e enfermeiros. Os dois fatores podem fazer a diferença no combate ao mal

Matéria publicada pelo jornal Correio Braziliense (DF)

Por Rebeca Ramos

Embora pareçam indefesas e inocentes, as crianças dão um show de compreensão quando o assunto é o tratamento contra o câncer. Mas, para que eles colaborem é preciso jogar limpo e de forma carinhosa. Os pais devem dizer a verdade, explicar claramente aos filhos as razões das estadias em hospitais e da enorme ingestão de medicamentos, além do envolvimento esperado. A constatação é de um estudo qualitativo da Universidade de São Paulo (USP) que avaliou como os pacientes infantis se comportam na batalha contra os tumores e quais os mecanismos utilizados por eles para que o período de tratamento seja menos sofrido.

Participaram do estudo realizado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP dez crianças com câncer e idade entre sete e 12 anos. Elas estavam internadas e recebiam tratamento quimioterápico havia pelo menos três meses. Com o objetivo de deixa-las mais à vontade e favorecer a expressão dos sentimentos, as entrevistas foram realizadas com o auxílio de fantoches desenvolvidos pelos pacientes e pela terapeuta ocupacional Amanda Pacciuliu.

“O objetivo era compreender, a partir da opinião das crianças, o que facilita o enfrentamento do tratamento quimioterápico”, conta Pacciuliu. Segundo a terapeuta ocupacional, ao entender o que as crianças sentem, é possível crias estratégias para facilitar o tratamento geralmente marcado por adversidades, como o afastamento dos amigos, os efeitos colaterais (náuseas, dores e perda do cabelo), a ociosidade e a realização de procedimentos e exames invasivos e dolorosos. Pacciuliu diz que as crianças preferem saber exatamente que doença têm para conseguirem entender a necessidade do tratamento.

A conversa franca com os profissionais de saúde também é essencial nesse processo. E o diálogo precisa ser feito de acordo com a idade do paciente. Só assim, ele compreenderá o que realmente está acontecendo com o seu corpo. De acordo com a psicóloga do Hospital da Criança Adriana Jaime, dizer a verdade permite que as crianças acessem o próprio conteúdo para tratar a doença. “Ela precisa saber como é e qual a importância do tratamento e, inclusive, os efeitos do medicamento. Dessa forma, pode participar indicando o que funciona”, diz. Um exemplo são os enjoos. Em uma conversa com o nutricionista, o pequeno paciente pode falar sobre as reações a determinados medicamentos. “É preciso encontrar uma forma para que a criança seja participante”, diz Jaime.

O estudo ressalta ainda a influência do clima criado no ambiente hospitalar e com os profissionais de saúde sobre os pequenos enfermos. Uma postura acolhedora, atenta às necessidades que estão além do cuidado biológico, os ajuda a enfrentar da maneira menos ameaçadora o adoecimento. “As crianças disseram que se sentem especiais e cuidadas com carinho pela equipe de saúde, o que faz com que se sintam mais confiantes e menos ameaçadas pelas adversidades da terapêutica”, ressalta Pacciuliu.

Terapia divertida

A pequena Bianca Letícia Feitosa, de 4 anos, sabe bem o que vai passar quando precisa ser internada no hospital. Há um ano e três meses tratando um linfoma de Burkitt, forma rara e agressiva de câncer nos linfócitos, a menina, que já foi internada quatro vezes, permite, sem reclamar, a aplicação de medicamentos e a realização de outros procedimentos. “Ela sabe e entende tudo. Nós explicamos o porquê de ela estar passando por isso e ela nos ajuda muito”, conta a mãe, Bruna Feitosa. Sem os cabelos e tendo febres esporádicas em decorrência do remédio, Bianca vê nas técnicas de enfermagem um motivo para ficar bem dentro do Hospital da Criança, no Distrito Federal. “Eu gosto muito da tia Poli e da tia Kaline. Eu prefiro ficar em casa, mas tenho que me cuidar”, justifica a menina, que recebeu alta na última quarta-feira.

Emocionada, a técnica de enfermagem Kaline Rodrigues conta como faz para conquistar a amizade dos pequenos pacientes. “Eu acabo tendo que desenvolver a ludoterapia. Como o tratamento das crianças é doloroso e envolve, muitas vezes, agulhas, nós temos que saber como lidar com a situação para que elas nos ajudem também”, conta. A especialista explica que conversa muito com os pequenos para deixa-los à vontade. “Nós precisamos ver o outro como um todo, alguém que tem, principalmente, sentimentos. Procuro acolher, tratar bem e sempre com alegria”, destaca. E as crianças agradecem. “Ela brinca comigo. Eu gosto dela”, elogia Bianca, que segundo a mãe, nem parece estar doente tamanha a alegria e a energia de viver.

A autora da pesquisa ressalta que, apresar do reconhecimento das adversidades vivenciadas durante as hospitalizações para o tratamento quimioterápico, as crianças demonstram construir vínculos positivos e, mais que isso, afetivos com a equipe de saúde, além de estarem dispostas a participar de brincadeiras, momentos em que a temporada no hospital se aproxima do cotidiano vivido antes da doença. “Os efeitos colaterais e a dor podem ser minimizados muitas vezes com recursos não farmacológicos associados às medicações, como estratégias de distração, alimentação escolhida pela criança e o uso de adereços na cabeça para disfarçar a perda do cabelo”, salienta. “As crianças relataram também manter a fé e esperança da cura durante todo o tratamento e, na medida em que acreditam que esse tratamento é o que vai propiciar que elas voltem a ter a vida que tinham antes do câncer, consideram que vale a pena passar por tudo isso”, completa Pacciuliu.

Angústias devem ser controladas

 “Essa interação entre equipe médica, criança e cuidador é essencial para o sucesso do tratamento. O ponto crítico dessa estratégia é a falta de comunicação. Temos um programa na Abrale, uma parceria com o Instituto Mauricio de Souza, que se chama dodói. Nele, bonecos, revistas e materiais atuam como facilitadores da comunicação infantil. O programa ajuda as crianças a se expressarem e a compreenderem as falas da equipe médica. Acredito que são necessários três passos para que todos passem por essa etapa equilibradamente. Primeiro, os pais precisam ser bem orientados para que não caiam nas armadilhas da má informação e fiquem com medo do que não sabem. Segundo, é necessário que pacientes e cuidadores busquem apaziguar seus medos e angústias, se preciso com o auxílio de terapeutas especializados. Por último, é importante que os pais reconheçam seus limites e não se coloquem na posição de heróis, pois, dessa forma, eles vão se esgotar e não serão bons cuidadores.”

Maria Teresa Veit, coordenadora do Departamento de Psicologia da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale)