Rádio Dodói: participação da família é importante no tratamento da obesidade

03/04/2020

A gastroenterologista pediatra do HCB Jaqueline Naves foi entrevistada no quarto episódio da Rádio Dodói. À frente do grupo multiprofissional que atende crianças e adolescentes diagnosticados com obesidade, ela contou ao podcast como é feito esse acompanhamento – e qual a importância de toda a família estar envolvida com os cuidados.

HCB: Qual é o quadro da obesidade infantojuvenil no Brasil?

Jaqueline Naves: Hoje, é considerada uma epidemia mundial, não só no Brasil; infelizmente, a prevalência da obesidade infantil vem crescendo nos últimos dez anos. Abordar esse tema na infância é de suma importância, porque sabemos que 80% dos adolescentes obesos vão se tornar adultos obesos. Nós temos que esquecer que é somente uma doença de idosos e lembrar que é no início que deve ser tratado para que não traga várias complicações.

HCB: Quais são as principais causas desse aumento da obesidade infantojuvenil?

Jaqueline Naves: O padrão alimentar mudou muito, se a gente comparar com 10 anos atrás. Hoje, a praticidade tende para a comida mais calórica: os industrializados, aquilo que você compra para fazer estoque em casa. Comer de forma saudável demanda muito tempo; você precisa ir ao supermercado todas as semanas – às vezes, mais de uma vez por semana. Precisa preparar os alimentos, tudo é mais perecível, demanda mais tempo e atenção dos pais – que muitas vezes trabalham e as crianças ficam sozinhas em casa, então, a praticidade leva para esse lado que não é tão saudável. Comer bem e saudável demanda não só tempo, mas dinheiro. Quando comparamos na prateleira do supermercado, aquilo que é mais saudável acaba sendo mais caro. Tudo isso vai contribuindo para esse aumento.

HCB: O que pode acontecer com crianças e adolescentes que são obesos hoje? Quais são as consequências para a saúde deles no futuro?

Jaqueline Naves: São consequências muito maiores do que se imagina. Às vezes, nós temos essa cultura de imaginar que pressão alta e diabetes são doenças de idosos. É assustador quando observamos que, cada vez mais, isso já vem se instalando na fase de infância e adolescência. Aqui, nós fazemos o acompanhamento entre 5 e 18 anos e, mesmo nas menores crianças, já vemos essas doenças instaladas. Como o Hospital da Criança é um serviço terciário, nós acabamos dando seguimento e acompanhamento das crianças que têm essas comorbidades. Há crianças que desenvolvem hipertensão, pré-diabetes ou até mesmo diabetes tipo 2; alterações cardíacas, esteatose hepática – que é a gordura no fígado e, se não for tratada, pode virar uma cirrose (que já é considerada a segunda causa de transplante em adulto). São vários tipos de alterações, lembrando ainda das emocionais, psiquiátricas, ortopédicas e endocrinológicas. A obesidade é uma doença crônica e que tem vários braços de descompensações que podem acontecer com o paciente.

HCB: Como é o acompanhamento que o HCB dá a essas crianças e adolescentes?

Jaqueline Naves: O que o Hospital da Criança propõe é a integração entre as especialidades: investindo nesse paciente de uma forma mais inteligente e de maior resultado. Nós solicitamos o apoio de outras especialidades, de acordo com a demanda de cada paciente – psiquiatria, cardiologia, nefrologia, endocrinologia. Hoje, nós temos um programa muito bem estruturado, onde todas essas especialidades trabalham juntas. Até mesmo na solicitação de exames, é tudo muito bem sistematizado – até para não expor o paciente a muitos procedimentos e a questão do custo. Também fazemos uma reunião de grupo, onde juntamos pacientes da mesma idade e nós, os profissionais, estamos presentes: o médico gastroenterologista, a nutricionista e a psicóloga, juntamente com uma equipe de educação física e gastronomia. Nessas reuniões, sempre tentamos abordar algum tema que está sendo trabalhado nas consultas, mas de uma forma bem lúdica para fazermos eles entenderem o porquê de cada coisa. Depois, temos o trabalho de educação física e nos reunimos em uma cozinha experimental.

HCB: Esse acompanhamento é sistematizado?

Jaqueline Naves: Sim, acompanhamos os pacientes por meio do programa de Sobrepeso e Obesidade, chamado pela sigla SPO. Ele foi criado para tentarmos sistematizar todas as condutas e consiste em 12 meses de acompanhamento. Criamos um Caderno do Paciente que tem espaços referentes aos 12 meses, para preenchimento em casa; os pais preenchem com as dificuldades que a criança ou adolescente está passando, os problemas que foram encontrados – tanto os de saúde quanto problemas de mudanças de hábitos. No sexto mês de acompanhamento, nós tendemos a reclassificar esse paciente – entender se ele já pode receber alta, se ainda vai continuar o tratamento, em qual classificação de risco ele está naquele momento.

HCB: Qual a importância da participação da família e da escola na educação alimentar das crianças para evitar a obesidade?

Jaqueline Naves: Principalmente quando falamos da obesidade secundária – da alimentação, que não é um problema endocrinológico ou genético – nós entendemos que 80% das famílias também são obesas. Quando fazemos os pais, a família, quem convive com a criança entender que precisa ser uma mudança de todos, nós conseguimos ter um resultado efetivo. Mudança de hábito é difícil em qualquer idade, mas quando é feita junto, tende a ser mais efetiva. Para tratar uma doença que envolve hábitos, a família é um dos esteios mais importantes. Nossa proposta aqui é que eles entendam o porquê de cada decisão, de cada conduta, e que isso realmente siga para a vida. A grande maioria dos familiares também são obesos, então, quando eles enxergam que também precisam fazer uma mudança, o tratamento é muito mais efetivo. A cada consulta, nós pesamos a criança; filhos e pais (quem mora com a criança).

HCB: Você falou sobre a alimentação e sobre atividades em cozinha experimental. O HCB faz algum trabalho para incentivar as famílias a consumirem “comida de verdade”?

Jaqueline Naves: Nós sempre abordamos receitas mais saudáveis, com sabor e baixo custo. Nós trabalhamos as receitas, entregamos de forma impressa para as famílias, essa integração é bem legal. Usamos o Caderno do Paciente, que é uma forma de trazer os pais como terceiro braço desse tratamento, aumentando o entendimento e envolvendo-os tanto na participação quanto na responsabilidade. Hoje, nós acompanhamos as crianças muito de perto; temos uma sistematização de atendimento e cobramos, também, os resultados, a assiduidade e as metas que estão sendo criadas – é uma forma de aumentarmos os resultados no final do tratamento.

HCB: Vocês têm uma abordagem diferente para crianças e adolescentes em relação à obesidade?

Jaqueline Naves: Diferença total, a idade influencia muito. Quando se trata de crianças menores, com seis ou sete anos, se torna até um pouco mais fácil, porque a criança come só o que é oferecido à ela. A consulta acaba sendo um pouco mais direcionada aos pais porque o domínio maior é o deles. Então, tende a ser uma fase mais fácil de se ter esse controle total, até porque a criança está em uma fase de crescimento maior. Em relação aos pequenininhos, é muito legal observar quando eles começam a criar esse entendimento, porque eles se tornam o motor de popa da casa; se tornam os fiscalizadores da avó, do avô. A abordagem com os adolescentes é um pouco mais difícil, porque a conversa é mais com eles: precisamos fazer com que eles entendam o porquê de tudo aquilo, o porquê das consultas, o porquê de virem tanto ao Hospital. Nós temos o acompanhamento das crianças menores de 12 anos em uma reunião de grupo e os maiores de 12 anos em outro, justamente pela abordagem, até de linguagem diferente.

HCB: Qual recado você daria para as famílias, crianças e adolescentes que estão ouvindo o episódio “Obesidade Infantil” na Rádio Dodói?

Jaqueline Naves: As consequências da obesidade são muito grandes. Eu lembro sempre de uma frase de um paciente que teve alta – ele chegou a perder 45 quilos, tinha 14 anos e, quando ele teve alta, nós da equipe ficamos muito felizes. No dia, eu listei para ele tudo que ele tinha conseguido de melhora. Eu falei: “Você melhorou o seu colesterol, melhorou sua pressão e não toma mais esse remédio, melhorou a gordura no fígado...”; eu listei tudo aquilo como se fosse o prêmio, o troféu que ele estava levando para casa. Ele me disse o seguinte: “Eu melhorei outras coisas também. Eu saí de um corpo de 65 anos e voltei para um corpo de 14. Eu nem entendia a dificuldade que eu tinha para amarrar um cadarço, tomar um banho… Hoje, eu tenho uma atividade, um ânimo, hoje as crianças da escola e da rua me chamam para brincar”.

É isso que eu tento passar para os pais. Eu sei que é muito difícil falar ‘não’, é muito difícil pôr limites, é muito difícil ter a alimentação saudável em casa: demanda tempo, dinheiro, criatividade. Mas o mérito, o prêmio no final de tudo isso, é muito grande. O que eu tento passar para os pais é que essa dificuldade, nós vamos viver juntos. Se eles puderem proporcionar aos filhos uma vida adulta com saúde, já vai ter valido a pena todos os ‘nãos’ que eles disseram.