Rádio Dodói fala sobre cirurgia urológica pediátrica

16/04/2020

Em seu sexto episódio, a Rádio Dodói entrevista o coordenador da urologia pediátrica do Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) Hélio Buson, que falou sobre os tipos de procedimentos realizados por esta subespecialidade da cirurgia pediátrica.

HCB: Como é o trabalho da cirurgia urológica pediátrica?

Hélio Buson: É preciso esclarecer que a cirurgia urológica pediátrica é uma subespecialidade da cirurgia pediátrica, então ela se mescla com a cirurgia pediátrica, nas suas atribuições. Aqui no nosso Hospital, a cirurgia urológica pediátrica é responsável pelo atendimento de doenças, malformações congênitas da área urológica de crianças, que são um pouco mais severas, um pouco mais complexas. Nossa equipe trata dos problemas mais complexos dos rins, das vias urinárias, de pacientes que eventualmente precisam de cirurgia.

HCB: Quais são as doenças que mais encaminham as crianças para a sua especialidade?

Hélio Buson: A doença mais comum que nós atendemos é uma malformação congênita chamada hipospádia; operamos três, às vezes quatro crianças com esse diagnóstico toda semana. É uma cirurgia ambulatorial: a criança só é internada no momento em que vai fazer a cirurgia.

Hipospádia é uma malformação congênita que atinge a uretra (canal por onde a criança urina) e os tecidos e órgãos que estão em volta dela. Na hipospádia, a uretra é malformada, assim como os tecidos e órgãos em volta da uretra, isto é: o pênis; o que a gente chama de a cabeça do pênis, que é a glande; e a pele que recobre o pênis, que é o prepúcio.

HCB: Qual a complexidade da cirurgia realizada para corrigir essa malformação?

Hélio Buson: Como todas as más formações congênitas – na verdade, como tudo em medicina –, a hipospádia pode ser desde um grau mais leve, até bastante grave. Essa gradação de gravidade implica, também, em um aumento da complexidade da correção cirúrgica. Casos mais leves são corrigidos de forma mais fácil e usualmente em um tempo cirúrgico só, isto é, uma cirurgia. Casos mais graves às vezes requerem duas, três ou mais cirurgias, para se conseguir a correção completa.

Nós recebemos também um número muito grande de crianças que são operadas de hipospádia em outros locais e que vêm pra gente já com complicações dessas cirurgias, para que a gente possa corrigir essas complicações. Esses casos são realmente mais difíceis, porque todas as vezes que você tem que reoperar alguém, a cirurgia fica mais difícil e os resultados também não são aqueles que a gente gostaria de ter numa boa parte dos casos; mas a gente consegue resolver praticamente todos esses casos de forma bastante satisfatória.

 

HCB: O senhor falou na malformação congênita de meninos; e quanto às meninas? Elas também são atendidas pela cirurgia urológica?

Hélio Buson: Essa é uma pergunta muito interessante. Urologia costuma ser confundida com uma especialidade que trata apenas de homens, todo mundo lembra dos problemas da próstata; mas não é bem assim. As mulheres também têm o aparelho urinário e, no caso, o aparelho urinário em íntimo contato com o aparelho genital. Os cirurgiões pediátricos urológicos se especializam em tratamentos de inúmeras malformações congênitas e doenças adquiridas do aparelho urinário de meninas.

Atendemos meninas e meninos com infecções urinárias, cálculos renais, cálculos de bexiga – cálculos são pedras, as famosas pedras no rim. Crianças, tanto no sexo masculino quanto no sexo feminino, têm pedras nos rins e esse é um grande problema que afeta a população do Distrito Federal. Existem crianças que, antes de completar um ano, já tem pedra nos rins e isso precisa ser tratado. O especialista no tratamento desses problemas é o cirurgião urológico pediátrico ou urologista pediátrico; também em conjunto com os clínicos, isto é, com pediatras especializados nos problemas dos rins, que no caso são os nefrologistas pediátricos.

 

HCB: Qual é a doença congênita das meninas é mais recorrente aqui no Hospital?

Hélio Buson: Em primeiro lugar, com certeza, vêm as crianças que tem infecções urinárias e, ao se investigar a causa da infecção, nós descobrimos alguma malformação do aparelho urinário interno que a está provocando, então a infecção urinária é um sinal de alerta.

Muitas vezes essas crianças têm uma coisa chamada refluxo vesico ureteral, ou seja, refluxo de urina da bexiga de volta para os rins. O rim filtra o sangue e o devolve para o nosso organismo; o produto da filtragem do rim é jogado para fora em forma de urina. Existe um fluxo de urina contínuo do rim para a bexiga, porque o rim, produzindo urina continuamente, também tem que jogá-la para fora continuamente. Esse fluxo de urina do rim até a bexiga, muitas vezes sofre impedimentos e você vai ter um acúmulo de urina – que se chama, na linguagem técnica, hidronefrose.

Existe uma válvula que deixa a urina entrar na bexiga, mas não deixa a urina retornar da bexiga de volta pro rim. Se você tem uma malformação nessa válvula, vai ter um refluxo vesico ureteral que pode, ao atingir o rim, levar a infecções urinárias. A partir daí, ressaltamos: a infecção urinária é o primeiro sinal, normalmente, de comprometimento do sistema urinário e a partir da investigação de uma infecção urinária, se chega à conclusão de que a criança tem algum tipo de malformação e que muitas vezes tem que ser operada.

HCB: O Hospital da Criança de Brasília também atende casos de fimose?

Hélio Buson: Os nossos cirurgiões pediátricos é que tratam de crianças com fimose. Por ser algo muito comum e muito simples, ela é algo que provoca confusão por conta de problemas conceituais: muita gente não sabe o que é. Fimose não é o nome da pele que recobre o pênis; aquela pele se chama prepúcio e ela pode ter o desenvolvimento de fimose, ou seja, fimose é uma doença do prepúcio. O grande problema é que o aspecto de um adolescente ou de um adulto que tem fimose é exatamente o mesmo de uma criança pequena, que tem um prepúcio infantil. Ou seja: o prepúcio infantil é fechado sobre a glande ou sobre a cabecinha do pênis da criança.

Esse prepúcio infantil fechado não é fimose, mas ele é idêntico ao prepúcio com fimose que aparece nos adolescentes. A pessoa olha a imagem de um adolescente ou de um adulto com fimose e olha a imagem de uma criança pequena com o prepúcio infantil e ela diz – bom, essa criança tem uma fimose. Só que ela se esquece que a criança é um ser em desenvolvimento, aquele prepúcio ainda vai se desenvolver e ele vai se abrir com o passar do tempo. Isso pode acontecer aos dois anos, como pode acontecer aos 10, 12, 14 anos de idade e isso não implica a necessidade de nenhum tipo de tratamento.

HCB: E em que situação a criança precisa de tratamento para fimose?

Hélio Buson: Quando a criança tem uma cicatrização da pele do prepúcio, que impede que o prepúcio ganhe elasticidade e se abra com o passar do tempo. Quando a criança, apesar de não ter fimose, desenvolve assaduras naquela pele (por acúmulo de urina, falta de higienização) e ela desenvolve inflamações recorrentes, aí essa criança também precisará ser tratada.

O tratamento da fimose, pelo menos em crianças, pode ser feito de duas formas. Uma é a aplicação de cremes ou pomadas anti-inflamatórias à base de corticoides e que trata, com sucesso, mais ou menos 70% dos casos de fimose ou de problemas no prepúcio de crianças no nosso meio. Os 30% que são tratados e não respondem bem ao tratamento clínico com essas pomadas, aí sim eles vão precisar de uma cirurgia, que é a famosa circuncisão.

HCB: Existem problemas de bexiga e que também são corrigidos por cirurgias feitas no Hospital?

Hélio Buson: Infelizmente, há malformações congênitas em crianças que atingem sistemas urinários; muitas vezes o sistema urinário e o aparelho genital; muitas vezes o aparelho urinário mais o aparelho genital mais o aparelho digestivo baixo de crianças, como a região do ânus, reto, etc, e que vêm a necessitar de tratamento, de correção cirúrgica. Uma das mais graves é a extrofia de bexiga: atinge a bexiga; a uretra; no caso dos meninos, o pênis de forma completa; no caso das meninas, a uretra até o seu limite com a vagina; e atinge também a bacia, ou seja, a bacia dessas crianças nasce completamente aberta na parte da frente e exposta na parede abdominal.

A cirurgia para a reconstrução do aparelho urinário dessas crianças é muito complexa e elas vão necessitar de acompanhamento para o resto da vida. Aqui no nosso Hospital, a nossa equipe faz parte de um grupo brasileiro cooperativo multi-institucional para tratamento de crianças com extrofia de bexiga. Nós nos reunimos em várias cidades do Brasil, para operar essas crianças da maneira mais adequada possível, reunindo um grande número de especialistas, para podermos dividir conhecimentos nessa área e dividir experiências e ensinamentos. Com isso, todos nós aprendemos cada vez mais e as crianças são muito beneficiadas como esse tipo de cirurgia.

HCB: Doutor, as crianças que passam por cirurgia urológica pediátrica precisam ser acompanhadas aqui pelo Hospital durante quanto tempo?

Hélio Buson: Um dos grandes objetivos de todo médico é poder dar alta para o paciente. O grande problema das malformações congênitas que afetam as nossas crianças é que essas malformações podem ter modificações ao longo do tempo de desenvolvimento da criança. Então você corrige uma malformação, mas mesmo assim é muito difícil dar alta definitiva para esse paciente antes que ele complete o seu desenvolvimento, isto é, que ele complete 18 anos de idade.

Nós precisamos sempre lembrar que a criança não é um adulto em miniatura, não é porque saiu do útero materno que completou o seu desenvolvimento; essa criança vai levar 18 anos, ainda, para se transformar em um adulto. Durante essa transformação, mudanças podem acontecer e fazer com que uma malformação que tenha sido corrigida no começo da infância venha a dar algum tipo de problema depois.

Por isso, uma boa parte das vezes, nós continuamos acompanhando esses pacientes com consultas uma vez por ano ou uma vez a cada dois anos, basicamente para checar se está tudo bem – e é claro que, se acontecer alguma coisa nesse ínterim, vão retornar para nossa atenção. A gente só consegue chegar à conclusão de que uma criança realmente pode receber alta depois dos 16 ou 17 anos de idade.