Rádio Dodói explica o que é necessário no tratamento do câncer

27/03/2020

No terceiro episódio da segunda temporada, a Rádio Dodói HCB entrevista a oncologista e hematologista pediatra Isis Magalhães, que explica o que é necessário para o tratamento de crianças e adolescentes com câncer.

HCB: O câncer em uma criança e diferente do câncer em adultos?

Isis Magalhães: O câncer é uma doença em que ocorre uma alteração genética nas células e elas param de seguir as regras normais do crescimento dos organismos. Na criança, o câncer advém de células mais embrionárias, mais jovens, e é um câncer que tem um crescimento mais rápido. Ele é mais sistêmico – ou seja, ele não fica localizado, já vai para todos os lugares do organismo. Embora tenha essa característica mais agressiva, paradoxalmente ele é mais sensível ao tratamento pela quimioterapia e tem muito mais chance de cura.

HCB: Quais são os tipos de câncer mais recorrentes tratados aqui no Hospital da Criança?

Isis Magalhães: Os cânceres mais comuns da infância são o que se inicia no sistema formador do sangue, que a gente chama “sistema hematopoiético”. São as leucemias. Na medula óssea, que é a fábrica do sangue, um grupo de células se modifica geneticamente. Ela não sabe mais amadurecer e dar origem às células normais do sangue – glóbulo branco, glóbulo vermelho, plaqueta –, mas continua com a capacidade de se dividir em outras iguais a ela.

HCB: Quais são os sintomas que uma criança com câncer apresenta?

Isis Magalhães: O que se percebe, como primeira manifestação, é uma redução na produção das células normais do sangue. Há uma diminuição nos glóbulos vermelhos e a criança começa a apresentar palidez, anemia sem causa aparente. Os glóbulos brancos normais, de defesa, também diminuem, e a criança começa a ter infecções de repetição de gravidade. Com as plaquetas diminuindo, você tem manifestações de sangramento: sangramento de gengiva, manchas roxas como se fossem pancadas – fora de locais normais, porque criança tem, mesmo, manchas roxas nas canelas, isso é habitual. Mas começam a aparecer equimoses, que são as manchas roxas em outros locais não habituais. Às vezes há febre recorrente, também sem explicação.

Essas são as manifestações que chamam a atenção de um dos cânceres mais comuns da infância, que é a leucemia linfoide aguda. A notícia boa é que a leucemia linfoide aguda também é o câncer que já alcançou o maior sucesso em tratamento, atingindo até 80% de chances de cura.

HCB: O que é preciso para que o tratamento seja bem sucedido?

Isis Magalhães: Os grandes serviços internacionais e brasileiros apresentam que existem algumas premissas. Primeiro, a gente tem que fazer um diagnóstico precoce. Quanto mais cedo o médico pediatra generalista desconfiar que tem alguma coisa errada e encaminhar para o centro de referência, melhores condições clínicas terá aquela criança para começar o tratamento e melhor a chance de cura.

Segundo: diagnóstico preciso. A leucemia é uma doença de vários subtipos diferentes, com comportamentos diferentes, e é necessário classificar corretamente, com os exames precisos. O Hospital da Criança tem exames de genética, de biologia molecular, para que se classifique exatamente o subtipo de cada uma das leucemias e adaptar o tratamento a cada uma delas. Isso é extremamente importante.

A outra coisa é o tratamento adequado: não estamos falando só em receber o medicamento “quimioterapia” na veia, mas toda uma equipe de suporte. A quimioterapia, os protocolos de tratamento adequados, atualizados, com o que a ciência vai trazendo de novidade – nós incorporamos rapidamente, essa é a nossa busca. Mas também devemos montar uma estrutura de suporte de equipe multidisciplinar; vários médicos especialistas que precisam estar aptos a tratar aquela condição – isso, o Hospital da Criança nos provê.

São esses os pilares que nós temos que perseguir para poder prover, aqui dentro do SUS, as possibilidades para que, a cada criança que chegar aqui, nós possamos garantir as chances de cura para sua doença.

HCB: Então, quanto mais cedo o câncer for diagnosticado na criança, maiores são as chances de cura?

Isis Magalhães: Exatamente. Nas crianças, ainda não temos a possibilidade de realizar a profilaxia como nos adultos. O cigarro causa câncer no pulmão, o HPV é o câncer de colo; na pediatria, nós ainda não temos essas causas estabelecidas, então não temos meios de realizar uma profilaxia primária. Então, temos que ensinar os nossos pediatras a estarem sempre abertos; se eles tiverem dúvidas, não tem problema: nós vemos o diagnóstico juntos. Se não for câncer, muito bem; mas se for, começamos o tratamento com a criança em um estado clínico melhor. Quanto mais rápido conseguirmos fazer isso, maiores as chances de cura.

HCB: Além dos oncologistas hematologistas, quais os profissionais que atendem crianças com câncer?                                                                                                     

Isis Magalhães: Toda a equipe multidisciplinar – psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, odontólogos (para cuidar das mucosites e dos focos infecciosos em bocas). Além dos médicos especialistas – cardiologistas, neurologistas, infectologistas e intensivistas. Todos afeitos às peculiaridades da criança com câncer.

HCB: O tratamento vai além de uma simples quimioterapia?                                 

Isis Magalhães: A equipe multidisciplinar e o apoio integral à criança e à família é extremamente importante. Vocês vão concordar comigo que receber o diagnóstico de uma doença dessa gravidade é uma coisa meio devastadora para a família. Então, você precisa ter condições de dar todo o suporte social a ela. Mais ou menos 43% das famílias que nós recebemos vêm de fora do Distrito Federal, se desestruturam em termo social. Nós contamos com a Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias (Abrace); que apoia em todas as etapas do tratamento – para hospedar as famílias em Brasília, trazer para o atendimento nos dias certos, não perder nenhuma consulta. Então, é um apoio social importante dentro do Hospital.