Mutirão previne AVC em doentes falciformes

08/10/2012

Mobilização inédita no Hospital da Criança de Brasília realizou exames de Doppler transcraniano em pacientes de três a 16 anos que sofrem da enfermidade sanguínea

Matéria publicada no portal da Agência Brasília

Por Evelin Campos

Prevenir a ocorrência de acidente vascular cerebral (AVC) em crianças e adolescentes com doença falciforme. Essa é a meta do mutirão inédito de exames Doppler transcraniano, promovido nesta segunda-feira (8) pelo Hospital da Criança de Brasília José de Alencar. Cerca de 30 especialistas de vários estados e do DF se mobilizaram durante todo o dia para examinar 72 pacientes de três a 16 anos.

O ambulatório de Doppler transcraniano do Hospital da Criança de Brasília funciona desde abril e é o único da rede pública. O exame é feito com um aparelho de ultrassom que avalia o risco de derrame por meio da medição do fluxo sanguíneo nas artérias do cérebro. A possibilidade de AVC existe devido à malformação de hemácias, que assumem forma semelhante a foices e dificultam a circulação do sangue.

O secretário-adjunto de Saúde, Elias Fernando Miziara, ressaltou a relevância da ação. "O Hospital da Criança de Brasília faz um trabalho magnífico e esse mutirão é exemplo disso", destacou Miziara, agradecendo a presença dos médicos que vieram de outros estados. "A todos vocês, o nosso reconhecimento por ajudarem a quem precisa", disse.

Os pacientes foram escolhidos entre as cerca de 700 crianças e adolescentes que fazem acompanhamento no hospital, em decorrência da doença, e nunca tiveram acidente vascular cerebral. "Entre 5% e 10% das pessoas com doença falciforme desenvolvem AVC. E normalmente o quadro se repete. Nosso objetivo é fazer a prevenção primária", explicou o onco-hematologista pediátrico do HCB, José Carlos Martins.

Prevenção – Importante na prevenção do AVC na doença falciforme, o exame será apenas o início do acompanhamento dos pacientes. Nos casos considerados normais (risco baixo), o Doppler será repetido anualmente. Se o resultado for condicional (risco relativo), o exame será a cada três meses. Por fim, se a medição for anormal (risco alto), uma nova análise será realizada em um mês. "Se o resultado persistir, iniciamos o tratamento com transfusão regular de sangue. Assim, vamos evitar o AVC em crianças saudáveis", ressaltou a coordenadora de Neuropediatria da Secretaria de Saúde, Cristiane Low.

Diagnosticado quando tinha um ano e meio, o estudante Igor Emerick, de 15 anos, passou pelo exame. A mãe do adolescente, Silvania dos Santos, de 35 anos, aprovou a iniciativa. "Esse exame é muito importante, pois a doença apresenta riscos se não for tratada, então ficamos preocupados. Aqui o ambiente é ótimo e todos são muito atenciosos", afirmou a dona de casa.

A diarista Cátia Neres, de 41 anos, descobriu que a filha Geovanna, de 8 anos, tinha a doença logo que ela nasceu. "Soube pelo teste do pezinho", contou. O teste, realizado em recém-nascidos, é fundamental no diagnóstico precoce. Isso permite que a doença seja tratada de forma adequada desde o nascimento da criança, evitando complicações mais graves.

Colaboração – Para realizar com sucesso o mutirão, médicos voluntários colocaram à disposição outros cinco equipamentos para o exame. A neurologista Carla Moro veio de Joinville, em Santa Catarina, para ajudar na ação. "Esse mutirão é uma coisa fantástica. O risco de AVC nesses pacientes é grande e muitas vezes ele é silencioso. Além de beneficiar as pessoas, essa iniciativa é uma oportunidade para os médicos da área, que podem adquirir conhecimento e trocar experiências", enfatizou.