Mutirão faz exame cerebral

09/10/2012

Hospital da Criança de Brasília recebe cerca de 25 médicos voluntários para detectar a possibilidade de AVC em dezenas de crianças e adolescentes portadores de anemia falciforme. Só existem dois aparelhos de Doppler transcraniano na cidade

Matéria publicada pelo jornal Correio Braziliense (DF)

Por Thalita Lins

Das 700 crianças e adolescentes com anemia falciforme que recebem tratamento no Hospital da Criança de Brasília (HCB), de 5% a 10% delas manifestam acidente vascular cerebral (AVC) em decorrência de complicações causadas pela doença. Para detectar se futuramente outros jovens podem ter AVC, cerca de 25 médicos do HCB, da Secretaria de Saúde do DF e da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) realizaram um mutirão. Graças a ele, 72 meninos e meninas, entre três e 16 anos foram submetidos ao exame Doppler transcraniano.

A mobilização ocorreu das 8h às 18h de ontem e a ação ocorre na mesma semana do 8º Congresso Mundial de Acidente Vascular Cerebral (AVC), de 10 a 13 de outubro, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Além de ser referência no tratamento da doença falciforme em crianças, o hospital foi o primeiro a oferecer serviço de diálise exclusivo para os pequenos, desde 18 de setembro.

O DF ainda não tem um cadastro oficial que aponte quantas pessoas possuem a doença na capital do país. Na rede pública, o Hospital de Base e o HCB possuem o equipamento responsável pelo exame. No Hospital da Criança, a unidade começou a ser usada no começo deste ano. Para que houvesse o mutirão, idealizado pela ABN, neurologistas filiados à entidade emprestaram outros cinco aparelhos para atender à demanda.

Foi graças à solidariedade desses médicos voluntários – vindos de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Goiás, do Amazonas e dos três estados do Rio Grande do Sul – que crianças como Bruno Gonçalves da Silva, 5 anos, passaram pelo procedimento. Aos 15 dias de vida, durante um teste do pezinho, ele foi diagnosticado com a doença falciforme. Desde então, o menino recebe tratamento para que as dores na barriga e nos ossos sejam amenizadas. Na manhã de ontem, Bruno foi levado pela mãe, a dona de casa Madalena Cândida da Silva, 37 anos, ao HCB.

O nível de manifestação da doença na criança é mediana, por isso, ela é examinada por médicos do hospital a cada três meses. Além disso, Bruno toma dois remédios para controlar as complicações causadas pela anemia falciforme. Ontem, após ser submetido pelo Doppler transcraniano, veio o alívio da mãe: o resultado mostrou que a atividade cerebral de Bruno está normal, ou seja, não há risco de ele ter AVC. “É bom saber disso. Estou mais tranquila”, desabafou Madalena.

Enquanto a mãe festejava o resultado do teste, o estudante Igor Emerick dos Santos, 15 anos, era diagnosticado. Deitado em uma maca, uma espécie de ultrassom, cujo o objetivo é medir o fluxo de sangue nas artérias do cérebro, era passado pela cabeça do jovem. Ao lado, a mãe do rapaz, a dona de casa Silvânia Santos, 35 anos, aguardava ansiosa pelo resultado. Cinco minutos depois, o laudo foi emitido. Assim como o resultado de Bruno, o de Igor também apontou normalidade. “Fiquei feliz por saber que ele está bem. É um grande alívio”, disse Silvânia.

Congênita

O oncohematologista e coordenador de ensino e pesquisa do HCB, José Carlos Córdoba, explica que a doença é congênita. “A pessoa nasce com ela (esse tipo de anemia). É um defeito de uma substância presente na hemoglobina, o que provoca alterações das células dos vasos sanguíneos”, explicou o especialista.

Segundo ele, o AVC chega a atingir 70% das crianças e dos adolescentes que não recebem tratamento adequado. Esse percentual cai para 10% caso esses jovens tenham o suporte básico. “Com esse exame, a expectativa de vida dessas crianças aumenta”, frisa Córdoba. Os menores que manifestam o nível mais crítico da patologia têm tratamento mensal e podem precisar de transfusão de sangue.