Rádio Dodói 2ª temporada: lavar as mãos evita doenças

13/03/2020

O infectologista pediatra Alexandre Paz é médico do Serviço de Controle de Infecção do Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB). No primeiro episódio da segunda temporada da Rádio Dodói, Paz fala sobre como é possível evitar doenças, como a provocada pelo Coronavírus, quando cada pessoa adota hábitos simples, como lavar as mãos.

HCB: Como é o trabalho de prevenção de infecções?

Alexandre Paz: A essência do trabalho de prevenção de infecção é entender como as infecções acontecem, quais são os veículos pelos quais elas são transmitidas; entender por que ela acontece com mais frequência em determinados pacientes do que em outros e atuar nessa cadeia de transmissão de maneira a impedi-la, ou de maneira a prevenir ao máximo possível que ela aconteça.

HCB: Qual é a forma básica de prevenção dentro de um hospital?

Alexandre Paz: A higiene de mãos, estar com as mãos limpas, é a medida mais básica, de maior eficácia. Dentro de um hospital, nossas mãos são o principal veículo de transmissão de bactérias: de um paciente para o outro, para o ambiente, para o profissional de saúde... A alma da prevenção de infecção, a principal medida, é a higiene de mãos. Existem os momentos adequados para fazer isto.

HCB: Quais são esses momentos?

Alexandre Paz: Dentro da área assistencial, a Organização Mundial da Saúde (OMS) advoga atenção aos cinco momentos principais para higienização das mãos:

Primeiro, o profissional precisa higienizar suas mãos antes e depois do contato com o paciente (1º e 4º momentos), para que não leve bactérias de um paciente para outro.

Antes e depois de procedimentos como punção venosa, passagem de sondas, curativos etc.; também são momentos importantes. Mesmo que se usem luvas, devem-se lavar as mãos antes de calçar as luvas e após a retirada delas. Esses são o 2º e o 3º momentos.

O 5º momento é o contato com superfícies próximas aos pacientes. Tocamos nas superfícies achando que elas são limpas, mas se elas estão próximas do paciente, estão contaminadas com as mesmas bactérias. Se você encostou na maçaneta da porta ou na mesa do paciente, está carregando as bactérias nas suas mãos. São esses os cinco momentos.

HCB: É fácil lembrar desses momentos?

Alexandre Paz: É muito difícil lembrar, na prática corrida do profissional de saúde. Em relação a isso, meu papel é modificar o hábito das pessoas, ajuda-las a criar um hábito de fazer isso sempre de maneira que elas não precisem nem pensar; automaticamente. Esse é o ponto em que as pessoas fazem a higiene de mãos adequada: quando elas não pensam mais sobre isso. Existem muitas outras medidas que nós fazemos, mas essa é a principal. Existem outras medidas em relação ao manejo de dispositivo invasivos, como sondas, cateteres e tubos; tem todo um conjunto de cuidados que se usam com esses dispositivos e que também fazem parte da prevenção de infecções.

HCB: O ato de não lavar as mãos é uma causa de infecções hospitalares?

Alexandre Paz: Existe, na literatura médica, uma estimativa sobre isso, baseada em estudos feitos no final dos anos 80 e início dos anos 90, de que mais ou menos 50% das infecções hospitalares ocorrem por causa de mãos não higienizadas adequadamente. Essa estatística diz que 50% dos casos eu consigo prevenir, caso eu atinja bons níveis de higienização de mãos na assistência da saúde.

HCB: E no caso do paciente?

Alexandre Paz: A gente sempre envolve o paciente no sentido de educação, sobre quando ele também tem que lavar as mãos. Nós temos um Hospital pediátrico, as mães estão sempre junto: elas participam do cuidado, mexem no curativo, dão banho na criança que tem um dispositivo invasivo (um cateter). Elas também têm que saber como fazer isso – então, no ambiente hospitalar, a gente sempre trabalha com a educação dos pacientes. Fora do ambiente hospitalar, isso não muda. O principal veículo de transmissão também são as mãos, então se a pessoa tem sempre o hábito de lavar as mãos antes de leva-las a boca, antes de comer, já é uma medida que previne grande parte das infecções que acontecem em casa.

HCB: Você desenvolve algum programa com as crianças?

Alexandre Paz: Nós atuamos muito no dia a dia, no sentido de educar e fazer as pessoas entenderem essa medida. Distribuímos livrinhos de colorir com figuras sobre higiene de mãos para as crianças poderem brincar de colorir essas figuras. Uma ação que nós fizemos com a equipe de voluntários que atua no HCB foi cantar músicas sobre lavar as mãos.                                                     

HCB: Quando a criança recebe alta, vocês têm a preocupação de reforçar esse tipo de hábito em casa?

Alexandre Paz: Certamente; essa pergunta traz à lembrança alguns casos específicos. Eu mencionei os dispositivos invasivos; hoje, é cada vez mais comum as crianças irem para casa com esses dispositivos. Por exemplo: num tratamento de câncer, elas carregam um cateter implantável (em grande parte dos casos). Elas vão para casa com aquele cateter, precisam saber cuidar dele. Nós temos, aqui no HCB, um serviço de hemodiálise ambulatorial em que a criança vem, faz hemodiálise, e passa o final de semana em casa, tranquila, com aquele cateter que precisa ser cuidado. Diálise peritoneal também – nesse subgrupo de pacientes, em especial, nós atuamos com muita força em conjunto com a equipe multidisciplinar e o serviço social, em relação à orientação domiciliar.

HCB: Há um trabalho de vocês direcionado para os profissionais, família e os pacientes em relação ao celular?

Alexandre Paz: O celular é nosso amigo e também nosso inimigo: para saber se o profissional está lavando as mãos no momento adequado, nós usamos um aplicativo para contabilizar e fazer estatísticas. No ano passado, como parte de uma das ações que fizemos, coletamos exames do celular de profissionais. Na verdade, tudo é contaminado, nada é estéril. Como o celular está sempre na nossa mão – que é um dos principais veículos de transmissão de doenças –, está bem documentado na literatura médica que ele recebe essa contaminação com uma frequência muito grande. Idealmente, nós, profissionais de saúde, não devemos estar sempre com o celular na mão durante o trabalho de assistência. Devemos limpar o nosso celular de vez em quando com algodão e álcool.

HCB: Como os profissionais, os pacientes e os familiares podem fazer a higienização de mãos correta?

Alexandre Paz: Não basta apenas jogar água e sabão nas mãos de qualquer jeito. As mãos são cheias de pequenas dobras, é necessário esfregar tudo: as palmas, o verso, entre os dedos, a ponta dos dedos, embaixo das unhas – para quem tem unhas grandes, o ideal é sempre lavar embaixo das unhas com uma escova. Dentro do Hospital, nós preconizamos que ninguém tenha unhas grandes, porque torna a higiene de mãos mais difícil.

Em casa, a maioria das pessoas vai ter disponibilidade de lavar com água e sabão na boa e velha pia. Dentro de um hospital, não é possível colocar pia em todos os lugares, então nós usamos muito álcool em gel: é prático, eficaz como a água e o sabão e mais rápido – porque entre abrir a torneira, esfregar e secar a mão, você gasta mais tempo do que simplesmente esfregar o álcool. Ele é mais fácil de disponibilizar, então nós temos dois ou três dispensadores de álcool em gel para cada um dos leitos de internação; um perto da porta, outro perto do paciente, para que o profissional não precise sair por aí procurando uma maneira de higienizar as suas mãos adequadamente.

Em casa, eu sempre oriento os pacientes sobre o álcool em gel ser muito prático de levar na bolsa. Se você vai comer e está em um lugar, na rua, em que não tenha um banheiro ou uma pia, levar um álcool em gel na bolsa faz bem, porque ele te deixa disponível ao mecanismo de higienização de mãos para todos os momentos.