Jovem paciente de câncer expõe obras de arte feitas durante internação

20/06/2012

Para suavizar a rotina das internações motivadas pelo câncer, Gabriel Nogueira Silva, de 15 anos, começou a desenhar e a pintar. O resultado são 13 obras em exposição, todas vendidas

Matéria publicada pelo jornal Correio Braziliense (DF)

Por Luiz Calcagno

Dominado pela angústia da internação para tratar um tipo raro de câncer, em fevereiro deste ano, Gabriel Nogueira Silva, 15 anos, sentou-se no chão do hospital, debruçou-se sobre canetas e papéis e desenhou. Riscava e coloria, coisa que nunca tinha feito. Extraiu da solidão e das noites de insônia 13 obras de arte coloridas com o azul em destaque e a força para enfrentar a doença em estágio avançado. Inspirou-se no primo que o visita com frequência, na madrinha, em desenhos animados, na internet, em reportagens que leu, nos grafites de Ceilândia e até na equipe médica. Os desenhos fazem parte da exposição inaugurada ontem no saguão de entrada do Hospital da Criança de Brasília José de Alencar (HCB), das 7h às 19h.

Com ar cansado e passos lentos, o adolescente hiperativo que gostava de futebol, fabricava pipas e comprava pulseiras para revender conta que desenhar “trouxe paz” para encarar o tumor desmoplásico de pequenas células redondas (leia Para saber mais). “A situação que eu vivia, internado, me motivou a pintar. Desenhar me fez combater a doença e o desânimo”, explica.

Além da cor azul, uma característica que marca os desenhos de Gabriel é o olhar expressivo de cada figura. O maior dos quadros ganhou o título de “O Preferido”, e foi também a primeira e mais querida obra do adolescente: um jovem de boné e olhos fechados parece fritar sobre uma textura de bolinhas, repleta de outros personagens de feições variadas.

Para o primo e amigo Pedro Henrique, criou o Pinguim da Amizade, com olhos grandes, quadrados e negros voltados para baixo. “Ele me fez um desenho e quis retribuir. Nós nos víamos muito e também brincávamos bastante. Hoje, ele me visita sempre que pode”, conta Gabriel. Para Adriana Jaime, psicóloga que o atendeu no HCB, pintou uma borboleta, símbolo de transformação. E o rapaz homenageou inclusive o índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, queimado por jovens de classe média enquanto dormir em uma parada de ônibus em 20 de abril de 1997. Desenhou a cabeça de um índio com cocar, oferecida em uma bandeja. “Na hora, foi o que veio na minha cabeça”, explica.

As obras foram vendidas por preços que variam entre R$ 50 e R$ 250. Gabriel tem, ainda, outras três encomendas e desenhos para terminar. O dinheiro já tem um destino: “Vou continuar pintando. Vou vender tudo e ajudar em casa”, planeja.

Questionado sobre a habilidade, ele explica que já gostava da arte urbana do grafite, mas ainda não tinha se arriscado a debruçar-se sobre o papel. “Eu não sabia que eu conseguia desenhar e pintar. O primeiro é o de que mais gosto. Tive mais criatividade nele. Eu me sentia muito desanimado, sozinho, sentia falta das pessoas. Depois dos quadros, fiquei melhor”, afirma.

Planos

Médicos diagnosticaram Gabriel em 2009. O tratamento, inicialmente, não foi agressivo. Mas, em janeiro, o corpo do jovem começou a responder negativamente à quimioterapia, vieram as dores e o câncer voltou. A mãe, a auxiliar de serviços gerais Irisnalda Alves Nogueira, 45 anos, perdeu as contas de quantas vezes o filho acabou internado. Orgulhosa do filho pintor, ela lembra que Gabriel estava muito deprimido antes de começar a desenhar. “Ele estava muito triste. Começou a me pedir coisas para desenhar. Nem eu sabia que ele conseguiria. A cada internação, ele levava o material e depois, em casa, passava para a tela”, conta.

Irisnalda conta que o filho nunca desistiu de viver, e mesmo sabendo que a situação é delicada, planeja voltar a estudar e fazer estágios. Ele mantém o foco nos planos, segundo a mãe, mesmo nos dias mais difíceis. Em uma ocasião, ela recorda que acompanhava Gabriel em uma internação quando um menino que dividia o quarto com ele morreu. Impactada pela situação e vendo o filho doente, ela começou a chorar. “Ele virou para mim e pediu que eu parasse. Ele não deixa ninguém desanimar e tem muita fé em Deus”, destaca.

Em casa, são apenas mãe e filho. O pai de Gabriel morreu quando ele tinha quatro meses. No colégio, o menino era conversador. Devido a tanta inquietude, Irisnalda levou o filho a um psicólogo, que diagnosticou a hiperatividade do menino.

Diante da situação complicada do filho, ela tenta não olhar para o futuro. “Eu tenho muita fé e meu filho também. Ele sabe que a situação dele é complicada, mas não fala nisso. E se eu falo alguma coisa que o desanime, ele me pergunta se está me faltando forças para acreditar em Deus”, acrescenta.

A psicóloga do HCB Adriana Jaime ainda lembra do momento em que Gabriel mostrou a ela uma pasta cheia de desenhos. “Ficaram muito bons. Propusemos que ele os pintasse em uma tela”, recorda-se. Ele queria grafitar as obras, mas, sem tinta, usou a canetinha hidrocor. “Ficamos maravilhadas com a primeira tela, continuamos fornecendo material e ele continuou pintando”, recorda Adriana. Uma das assistentes sociais do hospital, Fátima Porto percebeu a mudança de ritmo do jovem artista: “Ele ficou entusiasmado e começou a produzir com rapidez. Vimos a motivação surgir nele”.