Joia infantil

23/11/2012

Com uma equipe de 511 profissionais e 29 especialidades médicas, o Hospital da Criança de Brasília José Alencar comemora um ano de funcionamento. Já é centro de referência e atende apenas pelo SUS

Matéria publicada pelo jornal Correio Braziliense (DF)

Por Isabela de Oliveira

O Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) comemorou ontem o seu primeiro ano de vida. No mesmo dia, Brayan Lopes Feitosa, um dos pacientes, completou dois anos. Ele é uma das 257 mil crianças e adolescentes atendidos desde sua fundação. Animado com a movimentação, posou para os cliques das câmeras junto ao governador Agnelo Queiroz, que esteve na unidade de saúde para celebrar a conquista de mais um hospital de referência no Distrito Federal.

Ontem também foi o Dia Nacional do Combate ao Câncer Infantojuvenil. “Comemoramos esse dia porque, com esse hospital, iremos avançar no tratamento das crianças e adolescentes do DF”, ressaltou o governador. A unidade de atendimento pediátrico é pública e integra o sistema da Secretaria de Saúde. Foi construída pela Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias (Abrace), fundada em Brasília há 26 anos por pais de crianças que sofriam com a doença. “É importante destacar a contribuição de José Alencar, que ajudou na construção do hospital e foi um grande entusiasta do combate a doença”, disse Agnelo a Mariza Gomes da Silva, viúva do vice-presidente e madrinha da Abrace.

O HCB possui 7 mil metros quadrados que abrigam 30 consultórios médicos, 22 leitos de internação e atende 29 especialidades medicas. No total, há 511 profissionais trabalhando no complexo, que até o fim de 2013 contará com 21 mil m² e 202 leitos – 20 de UTI e 18 de cuidados intermediários. Também será erguido um centro cirúrgico e um centro de ensino e pesquisa. Administrado pelo Instituto do Câncer Infantil e Pediatria Especializada (Icipe), atende exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde crianças e adolescentes de até 18 anos. Não recebe casos de emergência, nos quais os pacienres devem ser encaminhados a postos de saúde.

Todo o serviço de oncopediatria do Hospital de Apoio e ambulatório do Hospital de Base foram transferidos para o HCB. A unidade é mantida com recursos do GDF, que cedeu profissionais de saúde treinados para oferecerem atendimento humanizado, um dos diferenciais do HCB. Esse tipo de atendimento preocupa-se em preservar a infância. Para isso, os ambientes foram pensados para serem amplos e luminosos, além de refletirem a diversidade cultural do DF. São, portanto, tematizados com os sete biomas brasileiros – Amazônia, Cerrado, Litoral, Mata Atlântica, Pampa, Pantanal e Sertão. Além disso, possui um programa de voluntariado estruturado em parceria com a Abrace. Mais e 100 profissionais divididos em 13 grupos de atuação divertem as crianças.

Caminhão de tijolos

A presidente da Abrace, Ilda Peliz, sabe bem as dificuldades enfrentadas pelos pais durante o tratamento do câncer. Ela perdeu uma filha para a doença e decidiu ajudar quem passa pela experiência. “A quimioterapia era no Hospital de Base, junto dos adultos. O Hospital de Apoio era confortável, repleto de jardins, mas sempre que necessitava de UTI ou centro cirúrgico precisava recorrer ao Base”, relembra.

Ela acrescenta que aí surgiu a necessidade de criar um hospital que oferecesse atendimento completo e então veio a parceria com o GDF. “O governo cedeu o terreno e, nós, a construção. Várias empresas ajudaram. Alencar nos conduziu para vários parceiros. Então, por exemplo, as armações de aço da estrutura ficaram 40% mais baratas. O que sairia por R$ 5 mil para o governo, saiu a R$ 2,5 mil para nós. Quando comprávamos um caminhão de tijolos, acabávamos ganhando outro de presente”.

Audrey Anne de Sousa, 22 anos, mãe de Alice, 2, passa pela mesma situação de Ilda. A filha sofre com um tipo de câncer chamado neuroblastoma, que ataca a glândula suprarenal e o fígado. Alice foi diagnosticada quando tinha cinco meses, em março do ano passado, e em abril já estava sendo tratada no Hospital de Base. “É uma doença agressiva. No caso dela, foi mais um pouco, porque o tratamento não deu certo. Desde que foi inaugurado, venho ao HCB”, conta a mãe, que sai da Cidade Ocidental a cada duas semanas para acompanhar as sessões de quimioterapia. “Em casa, Alice dorme muito, mas aqui ela fica elétrica porque tem o trenzinho e vários brinquedos”, alegra-se.

Nilza Lopes dos Santos, 38 anos, leva o filho Brayan Lopes Feitosa, de 2 anos, para tratar-se com um neurocirurgião. O menino, que faz aniversário no mesmo dia que o HCB, nasceu com hidrocefalia e mielominingocele – defeito congênito que afeta a espinha dorsal. “É ótimo que esse hospital não seja apenas para crianças com câncer, pois o meu filho tem outro tipo de doença”, destaca Nilza. Ela foi ao hospital pela segunda vez ontem e renovou as esperanças de que o filho um dia possa andar. “Os médicos são excelentes, principalmente o que me atende. Ele me conforta, me diz que Brayan pode andar um dia, quando estiver com as pernas mais fortes. Eu confio”.

Depoimentos

“Vim para cá logo que o hospital foi inaugurado. Foi difícil me acostumar no início, pois a equipe era pequena, mas com o tempo as coisas melhoraram. A estrutura é boa e todos são carinhosos. Eles me conheceram no início, quando Alice foi diagnosticada com câncer. Hoje, prefiro vir para cá, pois já conheço todo mundo. Em outros hospitais, apenas os médicos têm carinho especial pelo seu filho. O resto da equipe é indiferente. Aqui, eles conhecem o seu problema e a personalidade da criança. Não é um atendimento mecânico”.

Audrey Anne de Souza, mãe de Alice de Sousa, 2 anos

“O meu filho é muito extrovertido e inquieto. Ele precisa de estímulo, e esse é o hospital ideal, pois é colorido e possui brinquedos. Todos os procedimentos, até então, foram feitos no Hospital de Base, mas ainda bem que esse (HCB) apareceu. Aqui, ele pode brincar com os profissionais. Como não consegue andar, olha o pé de todo mundo. O melhor é que a estrutura foi criada apenas para crianças, então ele pode tentar engatinhar sem medo e rolar pelo chão. O atendimento é excelente. Eu não sabia direito o que era humanizado até vir aqui. Fico feliz, pois minha vida é só para o Brayan”.

Nilza Lopes dos Santos, mãe de Brayan Lopes dos Santos, 2 anos