”Hospital nascido de um sonho"

21/03/2016

Caminhando pelo canteiro de obras que viria a se tornar o Hospital da Criança de Brasília José de Alencar (HCB), a presidente da Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias (Abrace), Hilda Peliz, notou que as pias de alguns banheiros tinham sido colocadas a uma altura de 1,20m.  Bancária de profissão, ela estava estudando administração hospitalar com o único intuito de analisar, do primeiro ao último tijolo, todo o processo de construção do centro médico — e viu que algo não estava correto. “Havia tido aula de arquitetura hospitalar. Sabia que as pias tinham que ser mais baixas e avisei que deveriam ser mudadas. Tudo aqui foi feito para as crianças. Chamamos todas as áreas médicas para darem suas opiniões de como esperavam um hospital especialmente dedicado a elas.


Esse esforço não surgiu sem motivo. Hilda perdeu uma filha para o câncer, mas, antes mesmo de enfrentar a tragédia pessoal, viu de perto o sofrimento de outras famílias que dependiam do precário centro de oncologia infantil do Hospital de Base do Distrito Federal na década de 1990. “Estava com a minha filha em São Paulo. Os médicos garantiram que eu poderia continuar o tratamento dela aqui e eu voltei, porque tinha outros dois filhos. Mas, quando cheguei, tive um choque de realidade: vi o quanto era difícil tratar de algo tão delicado, como o câncer infantil, em um hospital público com foco nos adultos.”


Até então, ela ainda não fazia parte da Abrace. Porém, sua atuação dentro do Hospital Base chamou a atenção da associação. “Eu reclamava todos os dias e tentava ajudar as outras mães. Tínhamos apenas bons profissionais e precisávamos lutar por tudo mais.” A partir do momento em que se tornou presidente da Abrace, o projeto do Hospital da Criança começou a tomar forma. Atuando no grupo de assistência, Hilda foi descobrindo que não estava sozinha no sonho de construir, em Brasília, um centro especializado no tratamento de câncer em crianças.


“Sempre fiquei na ideia de consertar o que eu vi de errado no Hospital de Base. Fui, então, descobrindo que a vontade de toda a equipe de lá era a mesma: uma unidade só para as crianças. Saí vendendo esse sonho e as pessoas foram comprando.” A partir de 2000, começou a campanha de arrecadação de doações. Em 2005, com apenas R$ 3 milhões arrecadados de um total de R$ 30 milhões necessários, começou a construção. Foi quando o Governo do Distrito Federal (GDF) procurou a Abrace. De acordo com Hilda, a própria gestão distrital admitiu: se o hospital ficasse a cargo somente do Estado, ele se tornaria apenas mais um exemplo da dificuldade de gerenciamento na saúde pública brasileira.

“Eles sugeriram que a administração fosse nossa. O governo entrou com o terreno, a Abrace construiu e devolveu ao Estado. O que queríamos era um hospital público bem gerido. Foi quando criamos nosso modelo de gestão. Esse hospital foi pensado em todos os seus detalhes e hoje oferece atendimento para diversas especialidades médicas. Sempre pensando nas crianças.” Em 23 de novembro de 2011, o que era um sonho remoto tornou-se realidade. A capital ganhava o Hospital da Criança de Brasília.

“Tratamento com a qualidade dos melhores centros do país”
Mesmo recebendo tratamento contra um neuroblastoma, um câncer comum em crianças e que pode atingir células nervosas de várias partes do corpo, Henry Lacerda de Oliveira Ramos, 2 anos, não deixa de brincar nos passatempos oferecidos pelo HCB. Sua alegria é um alento para o pai, o engenheiro civil Elisandro Lacerda Ramos, 27 anos. “Quando recebemos o diagnóstico, meu primeiro pensamento era levá-lo para São Paulo. Só então eu soube que temos aqui em Brasília um tratamento com a mesma qualidade dos melhores centros do país”, garante. O jovem frisa que o amparo não fica restrito aos medicamentos que o filho recebe: toda a família também tem apoio psicológico para entender melhor o problema do bebê. “No início, a gente até fica assustado, porque imagina o câncer como um bicho de sete cabeças. Mas, com a ajuda que eles dão para a gente, isso fica mais simples de superar e ainda podemos ficar todos juntos, sem precisar sair de Brasília.”

“Só aqui recebemos tratamento adequado”
Sentado em cadeiras que foram doadas pelo ex-presidente José de Alencar — do mesmo modelo daquelas que ele usava durante seu tratamento no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo —, Hugo Ryan Ribeiro de Assis, 9 anos, recebe o tratamento ao lado da mãe, a operadora de caixa Elineide Ribeiro de Oliveira, 31. Ela garante que essa é sua melhor experiência com o serviço público de saúde e que, além do filho, a assistência a ela também é total. “Todas as minhas experiências anteriores foram terríveis.

Aqui, não. Eles são muito rápidos, eficientes e organizados e ainda me oferecem apoio. Parece muito mais um particular.” Elineide explica que somente após chegar ao HCB é que seu filho, que tem linfoma de Hodgkin, um tipo de câncer que ataca o sistema linfático, pôde receber o tratamento adequado. “Passei por diversos hospitais e nenhum deles dava um diagnóstico conclusivo. Só aqui eu consegui fazer que o Ryan pudesse ser tratado.”

Gerido pela sociedade
Gerido por meio de uma parceria entre a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES/DF) e o Instituto do Câncer Infantil e Pediatria Especializada (Icipe), o Hospital da Criança foi o primeiro exemplo desse modelo no Distrito Federal. Para a diretora técnica do Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB), Isis Magalhães, a participação da sociedade civil na gerência de um bem público não exime o Estado de cuidar da saúde. “A demanda da saúde pública é infinita. Por isso, nada mais indicado que a sociedade contribuir com isso. Não adiantaria só construir o hospital. Era preciso mudar toda a lógica de eficiência”, explica.


A médica afirma que, com o modelo de gestão do HCB, os médicos, os usuários e o estado puderam se unir para dar o melhor de cada um. “Ele é público, 100% SUS e usa instrumentos de gestão privada. E o cidadão é quem ganha com isso”, garante. Isis Magalhães faz parte da equipe médica que atuava no Hospital de Base antes de o HCB ser inaugurado.


Ela lembra as dificuldades que envolviam não só o serviço público de saúde, mas a própria descrença dos médicos na cura do câncer infantil. “Estávamos sozinhos no Hospital de Base, em uma luta inglória. Eu não tinha voz. Com a Abrace, pais que poderiam ter pegado seus filhos e ido para outro país decidiram ficar aqui e mudar a realidade! Foi quando vi uma luz no fim do túnel, e o que estava sendo feito no resto do mundo começou a ser feito aqui.”


A oncologista explica que um centro que reúna todas as especialidades pediátricas é indispensável para que o câncer infantil seja curado: esse sempre foi o principal objetivo de quem lutou para construir o HCB. “É preciso não apenas o remédio, mas toda uma estrutura além dele. O mais importante, para nós, é o tratamento de suporte: uma equipe multidisciplinar, com infectologista, terapia intensiva, pediatria, cardiologista, neurologista, que possa garantir que a quimioterapia faça o efeito esperado”, frisa.


Para o superintendente do HCB, Renilson Rehem, as dificuldades da saúde são conhecidas por todos os brasileiros, e iniciativas como a de Brasília podem fomentar um debate sobre os caminhos para a melhoria desse setor no país. “O HCB tem um papel relevante, porque foi criado sob a perspectiva do usuário. Ele mostra que a participação do cidadão é importante e que nem tudo precisa ser totalmente de responsabilidade do Estado. Não é preciso apenas votar certo, mas elaborar propostas e contribuir.”


Atualmente, o segundo bloco do hospital está em construção: foram liberados R$ 39 milhões para a ampliação dos leitos, que vão passar de 22 para 202, o que vai permitir que sejam realizados, por mês, 8.500 consultas médicas, 250 cirurgias de médio e grande portes, 850 diárias de UTI e 500 internações. “Esses pais da Abrace que se uniram para construir o HCB são acima da média. São 30 anos ao nosso lado, sempre tentando ajudar a nós e às crianças em todos os sentidos”, finaliza Ísis Magalhães.

 

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