Hemodiálise só para crianças

09/10/2012

Matéria publicada pelo jornal Correio Braziliense (DF)

Por Ana Pompeu

Levar um filho de três anos para sessões semanais de hemodiálise é complicado, ainda mais se ele precisa enfrentar filas em um ambiente hospitalar. O caso de Mônica Maria Pinheiro, 25 anos, mãe de Daniel, 3 anos, parece diferente: o sofrimento do garoto talvez seja menor por ele frequentar o primeiro serviço de diálise exclusivo para os pequenos, inaugurado no dia 18 deste mês no Hospital da Criança.

Daniel tem tumor de Wilms, nódulo renal mais comum na infância. Em 30 de julho, a família recebeu o diagnóstico. Antes disso, teve febre alta durante três dias. Médicos do Hospital Regional disseram que não havia motivo aparente. Desconfiada, a mãe levou o filho a um posto de saúde, onde exames de sangue acusaram alterações. A partir daí, ele passou pelo Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), pelo Materno-Infantil (HMIB) e pelo Hospital de Base (HBDF).

Nessa última unidade, Daniel recebeu as primeiras sessões de hemodiálise, devido à insuficiência no rim direito. Quando, em 10 de setembro, ele começou o tratamento no Hospital da Criança, Mônica sentiu a diferença. “No Base, o movimento é muito grande e ele ficava irritado, pedia para descer, ir embora, era mais difícil. Aqui, ele até dorme”, alegra-se a mãe. Daniel faz hemodiálise às segundas, às quartas e às sextas-feiras, durante duas horas por dia, e é a única criança atendida pelo serviço.

Desde que passou a frequentar o Hospital da Criança, a família o viu ficar mais calmo durante o tratamento, o que tranquiliza também os pais. “Quando ele quer ver um filme, a gente coloca na televisão. Também tem brinquedos à disposição. Mas quase sempre ele pede para apagar a luz e dorme”, conta. O momento do curativo é o mais delicado. Daniel chora porque o cateter deve ficar bem limpo e hoje a mãe fica mais confortável. Mônica se diz segura ao ver que um médico acompanha todo o procedimento e a equipe é preparada para lidar com crianças e o fazem com paciência.

O ambiente também é colorido e com espaços para as crianças brincarem. Para decorar o hospital, um trem passa pelas salas. Em vez da ala de internação, a criança é levada para a Estação Litoral. Cada unidade do hospital recebeu o nome de um dos sete biomas brasileiros. Além de Daniel, que faz as sessões semanais no hospital, o resto da família recebe atenção. A doença do caçula mexeu com a rotina deles, moradores do Varjão. Mônica quase não para em casa e encontra pouco o marido, o garçom Jair da Silva Ferreira, 26 anos. O casal de preocupa com o impacto que essas mudanças podem causar ao primogênito, Érique, 7 anos. O irmão mais velho começou um acompanhamento com psicólogos da unidade, assim como a mãe dos meninos.

Para a nefrologista pediatra e coordenadora da Unidade de Terapia Dialítica da unidade, Kélia Xavier, a influência da atenção especializada é indiscutível. “Parte do tratamento é técnica. A outra é emocional. E aí luz, cor e temperatura fazem diferença para evitar as intercorrências da hemodiálise”, avalia a médica.

Ela afirma que a unidade é a que mais se aproxima do modelo internacional. As máquinas são modelos encontrados em hospitais suecos, por exemplo. “Diálise misturada não é bom para ninguém. As crianças ficam inquietas e nenhum jovem ou adulto se sente bem ao ver alguém de tão pouca idade em um tratamento desses. Isso mexe até com a equipe médica”, alerta Kélia.