HCB realiza cirurgia de extrofia de bexiga com técnica inédita no DF

14/06/2019

O Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) recebe, nos dias 14, 15 e 16 de junho (sexta-feira a domingo), encontro do Grupo Cooperativo Brasileiro Multi-Institucional para o Tratamento de Extrofia de Bexiga pela Técnica de Kelley. Esta é a sexta reunião do grupo, formado por Cirurgiões Pediátricos especializados em Urologia Pediátrica.

Criado em janeiro de 2019, o Grupo viaja mensalmente para diversos locais do país para operar, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), crianças com extrofia de bexiga – uma malformação congênita que também atinge a parede abdominal inferior, os ossos da pelve (bacia) e o órgão genital. Os custos de cada viagem são pagos pelos próprios integrantes.

Durante o evento, o Grupo realizará uma cirurgia para a correção de extrofia de bexiga em um paciente brasiliense de um ano e 11 meses de idade. O procedimento, que dura de nove a doze horas, é inédito no Distrito Federal.

Segundo o cirurgião e urologista pediátrico, coordenador de urologia do HCB, Dr. Hélio Buson, um dos integrantes do grupo, essa condição é rara. “A prevalência da extrofia de bexiga é em torno de três para cada 100 mil nascidos vivos; aqui em Brasília, nasce uma criança por ano com essa malformação”, afirma.

Sobre a técnica cirúrgica

O Dr. Buson explica que a solução desses casos é cirúrgica. “Nas técnicas tradicionais, apesar de já serem cirurgias bastante complexas, a reconstrução que se realiza ainda é limitada. Em boa parte dos casos, os resultados ficam muito a desejar. Nessa nova técnica, a melhora é muito significativa, tanto no aspecto funcional quanto no aspecto estético”, afirma.

A Técnica de Kelley, no entanto, ainda é pouco utilizada por cirurgiões em todo o mundo. “É muito complexa, cheia de detalhes anatômicos que mexem com a vascularização e a inervação da bexiga, do aparelho reprodutor e do esfíncter urinário. Ela só pode ser utilizada por profissionais experientes e em um ambiente hospitalar pediátrico especializado como o Hospital da Criança de Brasília, da Rede Pública de Saúde do Distrito Federal”, explica o cirurgião.

A técnica foi idealizada há quase 50 anos pelo urologista pediátrico australiano Justin Kelley, mas só chegou ao Brasil recentemente. Um dos brasileiros mais experientes com esse método é o cirurgião e urologista pediátrico Nicanor Macedo. Chefe do Departamento de Cirurgia Pediátrica do Hospital Estadual de Transplante, Câncer e Cirurgia Infantil do Rio de Janeiro, ele não tem medido esforços para propagar a técnica a outros profissionais, por isso capitaneou a formação do Grupo – hoje, integrado por mais de 20 cirurgiões de diversos estados. “A vantagem dessa técnica é que se consegue uma reconstrução melhor e muito mais funcional de todos os órgãos. Apesar da alta complexidade, os resultados a longo prazo passaram a encorajar o seu uso”, diz o Dr. Buson.

O grupo de cirurgiões

Desde que foi constituído, em janeiro deste ano, o Grupo Cooperativo Brasileiro Multi-Institucional para o Tratamento de Extrofia de Bexiga pela Técnica de Kelley já operou seis crianças: duas no Rio de Janeiro, uma na Bahia, duas em São Paulo e uma no Rio Grande do Sul. Outros seis casos já estão sendo acompanhados pelos especialistas: um em Brasília, dois no Paraná, dois no Rio de Janeiro e um em Roraima. “Estamos fazendo algo bem diferente: reunimos um grupo de especialistas para ir até o local onde o paciente está. Assim, você não tira o paciente de sua comunidade; ele continua lá, apoiado por uma instituição local”, explica o Dr. Hélio Buson.

A cirurgia

Uma criança atendida pelo Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) e diagnosticada com extrofia de bexiga será operada pelos profissionais do Grupo em junho, no dia 15/06/19 (sábado). Trata-se de um menino de um ano e 11 meses de idade, que já vinha sendo acompanhado pelo cirurgião e urologista pediátrico Hélio Buson. Segundo ele, a cirurgia é muito delicada, por trabalhar com todas as estruturas afetadas pela malformação. “Antes da cirurgia, a parede abdominal, o púbis, a bexiga e a genitália estão abertas e expostas. São feitas incisões, separando-se cuidadosamente a bexiga, a próstata, a uretra, e os corpos cavernosos do pênis – no caso de um menino – dos tecidos em volta. Por exemplo, para evitar lesões aos nervos e vasos sanguíneos dos corpos cavernosos do pênis, é preciso dissecar por dentro dos ossos da bacia, pela camada do periósteo”, explica.

A partir daí, tem início a reconstrução. “No momento em que se disseca e solta todas as estruturas malformadas, todos os vasos sanguíneos e nervos são preservados e ficamos com uma estrutura única, em continuidade: bexiga, próstata, uretra e pênis – tudo solto, mas ainda conectado ao organismo. Depois que reconstruímos tudo, dando aos órgãos o formato que desde o início deveriam ter, devolvemos toda a estrutura para o seu lugar e ali fixamos os órgãos novamente”, diz o médico.

A cirurgia mobilizará, além dos integrantes do Grupo Cooperativo Brasileiro, vários profissionais do Centro Cirúrgico do HCB. Após o procedimento, a criança será encaminhada à UTI do Hospital.

Na véspera do procedimento (14/06/19, sexta-feira), às 19h30, o Chefe do Departamento de Cirurgia Pediátrica do Hospital Estadual de Transplante, Câncer e Cirurgia Infantil do Rio de Janeiro e idealizador do grupo, Dr. Nicanor Macedo, se reúne com profissionais do HCB para uma palestra explicativa sobre a técnica de Kelley e sobre a atuação do próprio grupo. “Nosso objetivo é ir em qualquer lugar que tenha uma estrutura, para operar quem tem extrofia; queremos descentralizar” conta o médico.

O Grupo, além de ser aberto, conta com pessoas de experiência na aplicação da técnica na cirurgia de extrofia.  “Todos os envolvidos diretamente na cirurgia têm experiência de, pelo menos, 25 anos nessa doença” afirma Dr. Macedo. As expectativas são as melhores para a cirurgia. “Esperamos que o resultado seja o mesmo dos outros seis que já operamos neste ano; todos tiveram sucesso”, afirma ele.

6º Encontro do Grupo Cooperativo Brasileiro Multi-Institucional para o Tratamento de Extrofia de Bexiga Pela Técnica de Kelley

Data: 14/06/19 (sexta-feira)

Horário: 19h30

Local: Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB)

Endereço: AENW 3, Lote A – Setor Noroeste