Estudante de medicina por um dia

26/09/2019

Fábio Dantas Júnior tem 15 anos e o sonho de ser médico. Na terça-feira (24/09/19), o adolescente – que é acompanhado pela equipe multidisciplinar de fibrose cística do Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) – foi estudante de medicina por um dia.

Acompanhado dos pais, Fábio e Ranielle Dantas, e da pneumologista pediatra do HCB Luciana Monte, o menino participou de uma aula de monitoria com alunos do segundo semestre de Medicina da Universidade Católica de Brasília (UCB). “Minha família já tem enfermeiro, dentista, nutricionista... Eu quero ser médico, é legal”, conta Fábio. Internado no HCB, ele recebeu uma autorização especial para participar da monitoria.

Durante a atividade, Fábio aprendeu como é feita a entubação de pacientes, praticou pontos cirúrgicos e puncionou veias – procedimento com o qual se habituou durante o tratamento. “Sempre que a equipe de enfermagem vai fazer a punção, ele fica tentando ver”, disse a mãe, Ranielle. A curiosidade trouxe resultados: assim que uma das alunas começou a demonstração, Fábio se apressou em dar sua opinião sobre a forma correta de coletar sangue para exames.

Segundo os pais, que acompanharam atentamente a aula de Fábio, o menino quis ser médico desde pequeno. “Uma vez, ele disse a uma das médicas que ela não precisava se preocupar, porque ele ia crescer e virar pediatra para substituí-la”, contou Ranielle. O pai, Fábio da Silva Dantas, brincou: “às vezes eu digo que ele precisa ser é geriatra, para cuidar da gente”.

A pneumologista Luciana Monte entrou em contato com a UCB quando identificou a possibilidade de aproximar Fábio de seu sonho: “A gente pensa na qualidade de vida dele, no conforto. Os olhos dele brilharam quando eu contei que ele teria um dia de aluno, por isso a gente optou por uma aula mais prática”. Antes de marcar a data, ela conversou com o futuro médico e seus pais. “Ele e a família participam das decisões, é um tratamento flexibilizado”, explicou Monte.

A aula foi realizada no Ambulatório e Laboratório de Habilidades da UCB e acompanhada pela coordenadora de enfermagem do Ambulatório, Clênia Araújo. “A gente ficou muito feliz em recebê-lo; foi um aprendizado, porque o Fábio ensinou muita coisa para a gente, estamos todos emocionados. Essa atividade mostra a parte humanizada que os alunos têm que ter”, disse Araújo.

Para a estudante Anna Cálida Tajra, o encontro com Fábio foi especial. “Foi uma manhã indescritível. Como estou estudando, consigo ter a experiência de aprendizado todo dia, mas esse contato precoce com o paciente é ótimo. Estar com alguém tão jovem e que tem o mesmo sonho que o meu é gratificante”, afirmou Tajra, que ensinou o adolescente a fazer diferentes tipos de pontos utilizados em cirurgias.

Estudante e professor

Se durante a aula os alunos da UCB ensinaram os diferentes procedimentos, a parte final da monitoria teve outro professor: Fábio explicou quais são os sintomas da fibrose cística e como é seu tratamento. A partir da experiência dele, os alunos puderam conhecer um pouco da doença.

De origem genética, a fibrose cística é caracterizada pelo acúmulo de muco espesso em todo o organismo – em especial, nos pulmões –, além de ter sintomas como suor salgado, problemas no pâncreas e desnutrição. O acompanhamento é feito de forma multidisciplinar (diferentes profissionais de saúde atendem a criança ao mesmo tempo) e o tratamento envolve antibióticos, enzimas digestivas, fisioterapia, entre outros. Algumas vezes, é necessário que a criança seja internada.

No caso de Fábio, as internações geralmente acontecem duas vezes ao ano. Seu pai, Fábio da Silva Dantas, explica que a frequência está alinhada às férias escolares, para que ele se sinta bem para ir à escola. “O pulmãozinho dele acumula secreção; quando ele se interna, toma os antibióticos direto na veia e fica bem, sai pronto para a aula”, afirmou. O menino – que é admirado, tanto pelos pais quanto pela equipe de saúde, por sua dedicação aos estudos – está no primeiro ano do ensino médio.

Para a assessora da direção do curso de Medicina da UCB, Cláudia Garcia, o dia de aluno de Fábio não foi importante apenas para ele, mas também para o futuro dos alunos. “A gente tem primado muito por fazer o treinamento técnico, mas também o treinamento humano – olhar a pessoa, não a doença. Para a formação deles, é muito rico ter contato com pais que participam tanto; eles começam a ver que o paciente também é a família, a vida dele, a escola. Não consigo conceber um médico que não tenha esse olhar diferenciado e humano”, disse Garcia.

 

Texto e fotos: Maria Clara Oliveira
Edição: Carlos Wilson
Coordenação de Comunicação: Ana Luiza Wenke