Desafios da saúde indígena

04/05/2015

Foi realizado, no último dia 17/04 (sexta-feira), o I Encontro de Saúde e Cultura Indígena do Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB). O evento teve como foco discutir a situação da assistência médica à população indígena no Brasil. Participaram do debate representantes da Casa de Saúde Indígena (Casai) do Distrito Federal e profissionais da equipe médica do HCB.

O HCB e a Casai atuam de forma conjunta na promoção da saúde indígena – as crianças hospedadas pela Casai que precisam de atendimento pediátrico especializado são acompanhadas pelo hospital. O diálogo entre as duas instituições se iniciou com um dia de formação dada pelo HCB à equipe da Casa de Saúde Indígena, e foi continuado com o Encontro realizado no hospital.

Atualmente, o órgão máximo que controla a saúde indígena no Brasil é a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Ela ainda é responsável por administrar a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas e o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS), componente do Sistema Único de Saúde (SUS).

Um dos principais temas abordados no encontro foi a dificuldade de se comunicar com os índios. Em algumas tribos ninguém sabe falar português, o que impede que a compreensão das recomendações médicas.

Raimunda Carlos, assistente social da Casai-DF, afirma que os aspectos culturais também interferem na adesão ao tratamento. “Como é que nós vamos demonstrar ao índio xavante que ele precisa fazer dieta para ficar magro, para não ter problemas de obesidade ou diabetes, se para ele é bonito ser forte? Ou então convencer alguma comunidade indígena de que comer com cachorro perto é ruim, se para eles este animal representa algum parente ressuscitado?”, questiona.

A equipe da Casai afirma que o fato do tratamento ser realizado fora da tribo, em um ambiente totalmente diferente, causa receio a alguns índios. Áurea Magalhães, psicóloga da Casai-DF, explica que “Alguns tratamentos são muito longos, durando dois ou três anos, como no caso de crianças com leucemia. Então nós pensamos em estratégias para melhorar e desenvolver o atendimento desses pacientes”.

Um fator levantado pela equipe da Casa de Saúde Indígena é a influência cultural que os pacientes recebem quando saem da tribo para se tratar. O choque com a cultura urbana muda bastante alguns hábitos e a tecnologia afeta essas pessoas, que passam a ficar dependentes dos celulares, tablets, entre outros. Ricardo Soletti, enfermeiro da Casai-DF, pontua que “a cultura se modifica de acordo com a necessidade. Eles vão criando novos significados às coisas que eles davam valor anteriormente de acordo com o que eles estão vivendo hoje”.

Alguns índios ficam com receio de ter que sair de sua tribo e ir para um ambiente totalmente diferente para tratar sua doença. Entretanto, a Casai tenta criar um clima mais agradável a essas pessoas, oferecendo algumas atividades específicas de cada cultura. Isso também é uma forma de se esquecer um pouco a gravidade da doença de alguns indígenas.

Cada tribo realiza atividades próprias da sua cultura. Áurea ainda conta que essa forma de entretenimento serve para que os índios se sintam em casa, e não fiquem totalmente excluídos dos hábitos de suas tribos. “É sempre importante aproximar a realidade desse povo que, às vezes, fica tanto tempo fora”, ela relata.

A relação entre índios de tribos diferentes também é um grande problema. A maioria não gosta de ter contato com indígenas de outras culturas. Quando esses índios são levados para a Casai, a equipe da instituição toma cuidado para evitar conflitos entre as culturas. “Existem diferenças entre eles. Cada um vê o mundo de uma forma. Eles se organizam e agem de formas diferentes. Eles não são amigos de todas as tribos e se consideram únicos. O outro é o outro”, afirma Ricardo.

O tratamento aos índios, algumas vezes, não é levado a sério. Raimunda acredita que essa população merece ser atendida com a mesma qualidade e dedicação que qualquer um. “Hoje em dia, muitas coisas que poderiam ser resolvidas rapidamente não são resolvidas. A população indígena deveria receber uma assistência à saúde com a mesma atenção que qualquer outra pessoa recebe”, completa a assistente social.

 

Texto: Augusto Almeida
Foto: Maria Clara Oliveira

Edição: Carlos Wilson
Coordenação de Comunicação: Ana Luiza Wenke