Controle da dor é tema da Rádio Dodói

12/05/2020

O Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) oferece acompanhamento específico para controle da dor. Em entrevista à Rádio Dodói, o anestesista especialista em dor e cuidados paliativos Marcos André Frasson explica como esse ambulatório funciona e qual o perfil das crianças que precisam dessa atenção específica.

HCB: Doutor Marcos André, outras especialidades médicas também tratam da dor. Qual a importância de um especialista em dor dentro de um Hospital?

Marcos André Frasson: Sabemos que a dor é o sintoma mais comum que existe no mundo. Então, muitas vezes, nós vemos que muitas vezes essas dores não são tratadas ou são tratadas de forma inadequada. De uns anos para cá, estamos tentando olhar para esses pacientes com um carinho maior, porque nós vemos o quanto que uma dor não tratada ou tratada de forma inadequada piora muitos outros aspectos dos pacientes.

HCB: Qual a diferença entre o trabalho de um especialista em dor e o de outro especialista, como o neurologista pediátrico ou um ortopedista, por exemplo?

Marcos André Frasson: Bom, um médico de dor acaba agregando várias pequenas funções das outras especialidades – então, muitas vezes, nós vamos de encontro ao tratamento delas, como ortopedia, neurologia, neurocirurgia, reumatologia, oncologia e várias outras. Muitas vezes nós, especialistas em dor, temos recursos com que esses outros especialistas não têm muita familiaridade, principalmente em se tratando de pacientes com dor crônica. Nós somos, muitas vezes, uma clínica amiga; atuamos em conjunto com essas outras especialidades para pensar em um tratamento adequado para que essa criança possa se recuperar de uma forma mais rápida, menos dolorosa e com menos efeitos colaterais.

HCB: Quais são os tipos de dor?

Marcos André Frasson: Temos vários tipos de dor: a aguda, que dura de dias a semanas; a dor crônica, que em geral dura até depois de três meses e é uma dor mais difícil de ser identificada e de se tratar, é relacionada à muitas outras doenças. Temos a dor pós-operatória, que vem depois de cirurgias; nós temos, também, vários tipos de dores que não são somáticas, que não vêm com o machucado – são dores que vem com sentimentos, dores do coração.

HCB: Qual a importância do tratamento interdisciplinar no tratamento da dor?

Marcos André Frasson: Muito se tem estudado sobre dor nos últimos anos e nós vimos que, toda vez que trabalhamos sozinhos, nunca conseguimos chegar a um nível adequado, àquele que a gente gostaria. Então, quando nós começamos a trabalhar em conjunto com outras especialidades médicas e não-médicas, conseguimos abordar questões que não conseguíamos antes. Por exemplo, a fisioterapia e reabilitação são essenciais no tratamento de várias dores crônicas.

Muitas vezes, há uma dor psicológica, que vem com o sentimento – por essa criança estar longe de casa, lidando com um sofrimento muito grande, longe da mãe, longe da escola… Ela não sabe o que está acontecendo, então tem todo esse sofrimento; então, a equipe da psicologia é fundamental e indispensável nesse tratamento.

Nós temos, também, as equipes cirúrgicas; muitas vezes, só com procedimentos, medicamentos orais ou procedimentos minimamente invasivos, nós não conseguimos melhorar esse paciente, precisamos também dessas outras especialidades. Então, o que foi descoberto é que, quando nós trabalhamos em conjunto, conseguimos chegar muito mais longe.

HCB: Existe algum tipo de dor que não passa?

Marcos André Frasson: Há o que chamamos de “dor total”. É uma mistura de muitas outras dores: além da dor física, nós temos um sofrimento psicológico, emocional, espiritual, social. Então, muitas vezes nós temos um paciente com quem fazemos de tudo em relação às medicações, à fisioterapia, às vezes em relação à psicoterapia e ele ainda continua expressando um padrão de dor muito difícil de tratar. Nesse caso chamamos de dor total; é muito difícil de tratar, porque muitas vezes esse sofrimento estende a nossa atuação, mas sim, nós sempre temos alguma coisa para fazer pelo paciente.

HCB: Quando o remédio não adiantou, a psicologia não adiantou, é uma coisa diferente disso, como vocês atuam?

Marcos André Frasson: Nós fazemos uma reunião em equipe e também abordamos a família, porque se a família não estiver ao nosso lado, não conseguimos acessar esse paciente e conseguir atuar nesse sofrimento dele. É tentativa e erro, um passo depois do outro; o importante é não desistir e sempre tentar encontrar alguma forma de diminuir, mesmo que seja um pouco, esse sofrimento.

HCB: Então, às vezes, o tratamento não requer um medicamento de última geração?

Marcos André Frasson: Muitas vezes. Nós não sabemos se o que está gerando esse sofrimento é ausência dos pais, dos irmãos, dos amigos, da escola, da vida que o paciente tinha antes de ter esses problemas de saúde... Então, muitas vezes, uma pequena ação vale muito mais do que qualquer medicamento de última geração que a gente possa ter.

HCB: Quem são as crianças que as outras especialidades encaminham para o senhor tratar?

Marcos André Frasson: Especialmente aqui no Hospital da Criança de Brasília, eu tenho muitos pacientes com doença falciforme, doenças oncológicas, com cefaléia, alguns com fibromialgia e muitos que, às vezes, os colegas têm um pouco de dificuldade de manejar a dor desses pacientes e encaminham para mim; são os pacientes que têm dor crônica de difícil controle.