"Humanização não é treinamento, você não torna alguém humano”

09/06/2016

Na sexta-feira (03/06/16), o Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) deu seguimento a seu II Encontro de Comunicação e Saúde. No segundo dia de evento, a relação entre profissionais e pacientes foi um tema recorrente.

A psicanalista Maria Fátima dos Santos e a médica de família Patrícia Nakanishi foram as primeiras a abordar o assunto. Elas defenderam a necessidade de um encontro mais humano durante as consultas. Desse modo, o paciente pode ser visto como especialista em sua própria saúde e o médico, como um ser humano capaz de falhas. Maria Fátima dos Santos (foto acima) percebe que essa visão é associada à humanização do atendimento, mas que tal ligação inspira receio. “O rótulo da humanização é problemático porque pode virar uma tentativa técnica, um novo protocolo; humanização não é treinamento, você não torna alguém humano”, afirmou.

O contato proposto pelas convidadas levaria os médicos a se questionar sobre as reações geradas por cada paciente e a se abrir para o diálogo, o que auxiliaria no tratamento. “Em primeiro lugar, se estabelece uma relação de iguais. Estabelecendo essa relação e considerando que o outro é especialista no que sente, você consegue dividir responsabilidade, negociar o tratamento”, explicou Nakanishi (foto acima).

A palestra seguinte provocou pensamentos sobre a chamada “nova classe média” do Brasil. Estudioso desse tema, o profissional de marketing André Torretta (foto acima) associou a ascensão desse grupo social a sua atuação perante os serviços de saúde. Para o palestrante, é preciso “prestar atenção nesses novos comportamentos do brasileiro, esse empoderamento dele tendo a possibilidade de exigir novos serviços, melhores serviços”. Torretta explicou que, “vinte anos atrás, não existia um sistema de saúde tão amplo, nem um sistema de saúde particular que atendesse às classes mais baixas”.

O médico Jean Carlo Pegas (foto acima), do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, falou sobre o Escritório do Paciente, iniciativa em que atua no hospital paulista. Voltado ao relacionamento entre o usuário do hospital e a equipe que o atende, o Escritório foca no paciente para promover sua melhora não apenas física, mas emocional, mental, social e espiritual. Pegas reforçou o fato de que toda a equipe do hospital é responsável pelo tratamento, não só os médicos. “A experiência do paciente é de todos, desde o momento em que o paciente decide ir ao hospital até sua alta. Todos os funcionários são cuidadores e responsáveis, com empatia, comunicação e prestação de serviço”, afirmou.

O biomédico Onício Leal Neto (foto acima), sócio fundador da empresa de tecnologia Epitrack, falou sobre inovações tecnológicas na saúde e apresentou exemplos de aplicativos que monitoram a incidência de doenças infecciosas em determinada população. Para o palestrante, a própria equipe do hospital pode, com criatividade, desenvolver alternativas para corrigir problemas ou aprimorar o tratamento. “Não precisa chamar ninguém de fora, o corpo técnico pode fazer reuniões periódicas e pensar em coisas não triviais”, sugeriu.

A realização de eventos como estratégia de comunicação foi abordada pelo publicitário Bruno Botafogo (foto acima), da agência de comunicação Mr. Brain. O convidado explicou a importância de ver cada evento como uma forma de criar e fortalecer a marca do Hospital. “Os eventos têm que ser todos pensados no conjunto para construir esse conceito, não é fazer um evento por ser evento”, disse Botafogo. Ele também acredita que, por ser pediátrico, o HCB possui “o envolvimento que a criança provoca em todos nós, adultos” e que, “em termos de eventos, é preciso acompanhar essa emoção e buscar esse engajamento, esse envolvimento”.

A mestra em Comunicação Social Vânia Balbino (foto acima) encerrou o Encontro de Comunicação resgatando a relação entre equipe e paciente, por meio da comunicação terapêutica. Depois de estudo de campo realizado no HCB, ela identificou o que chamou de comunicação hospitalar, voltada à promoção de saúde. Depois de apresentar ao público situações que presenciou durante os meses em que pesquisou o Hospital, ela destacou o papel das brinquedotecas. “Se vislumbra a possibilidade de colocar o médico dentro da brinquedoteca; a partir do momento que ele se insere naquele contexto, passa a falar a linguagem daquela criança”, explicou Balbino.

 

Texto: Maria Clara Oliveira
Fotos: Augusto Almeida e Luís Felgueira

Edição: Carlos Wilson
Coordenação de Comunicação: Ana Luiza Wenke