Brincar para estar saudável

14/06/2019

 

A professora assistente da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) Márcia Kobayashi participou do primeiro Encontro do Brincar, realizado pelo Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) na terça-feira (28/05/19). Durante o evento, ela falou sobre o papel dos jogos e brincadeiras no desenvolvimento das crianças, e como essas atividades podem ser úteis no contexto da saúde.

HCB: Qual é a importância do brincar no ambiente hospitalar?

Márcia KobayashiO ambiente hospitalar é agressivo à criança. Quando a criança brinca, ela se descentra daquela situação e vai para o mundo da imaginação, que, ao meu ver, minimiza um pouco esse sofrimento. O brincar no ambiente hospitalar tem justamente o papel de fazer essa descentralização da criança daquele momento tão dolorido, tão triste para ela. Então ela tira um pouco do medo daquele sofrimento e ela vai se concentrar em outras questões.

HCB: Como os adultos podem se preparar para esse momento de brincar, tanto no Hospital como fora, para participar dessa interação que as crianças têm com a brincadeira?

Márcia KobayashiPrimeira coisa, ele tem que se reaproximar da criança que ele foi, tem que lembrar o que é ser criança, porque senão, ele vai sempre olhar a criança com um grau de desigualdade. Crianças são diferentes de adultos, pois estão em um processo de construção de uma vida e de uma identidade. São os objetos que nós disponibilizamos para ela que nós chamamos de brinquedo, ela não chama de brinquedo; ela aprende a falar a palavra brinquedo, jogo. São os objetos que ela tem no entorno – assim como eu tenho meu carro, meu celular, o computador onde montei minha apresentação. Para ela, qualquer objeto pode ser um brinquedo. No mundo da fantasia, ela pega um lápis e o transforma em outra coisa. É a substituição desse objeto, que possui uma materialidade, em outro. Quando os adultos conhecem as crianças, eles têm a oportunidade de entender melhor o mundo da criança, oportunizar, apresentar outros objetos mais adequados, desafiadores e seguros para elas.

HCB: Como os objetos eletrônicos – tanto tablets e celulares quanto bonecas que falam, carrinhos que interagem com a criança – interferem no hábito de brincar?

Márcia KobayashiEu parto do princípio do potencial lúdico – um objeto, que chamamos de brinquedo e jogo, tem um potencial. O objeto não brinca sozinho. Quando o objeto brinca sozinho – como a boneca que fala, que canta e que dança, o carrinho que se controla, que vai, que tromba, que volta –, cadê a ação dessa criança? O objeto lúdico está ali para a criança imaginar, criar situações. Quando o objeto é muito pronto, como ela vai criar? Vai criar o que, se o objeto já está criado? Fator lúdico é o que a criança tem para fazer e potencial lúdico, aquilo que o objeto oferece. É essa relação que nós presenciamos e denominamos “brincadeira”, “jogo”.

HCB: Existe uma espécie de idade limite para o brincar?

Márcia KobayashiNão! Quando a gente para de brincar, a gente para de ser humano. Porque foi o jogo, segundo alguns teóricos, que nos fez ser Homo ludens; homens que brincam, que jogam. Quando deixamos de brincar, nós nos tornamos muito duros, muito rústicos. Nós brincamos com as ideias, a música é brincar com as notas, a dança é brincar com o corpo; a questão da sexualidade é brincar com o nosso corpo, de uma forma muito íntima, com algumas partes do nosso corpo e da nossa imaginação. É só a morte que vai finalizar os processos de brincar e de jogar.

 

Texto e foto: Maria Clara Oliveira
Edição: Carlos Wilson
Coordenação de Comunicação: Ana Luiza Wenke