Anjos da guarda

25/07/2013

Os voluntários desempenham um papel fundamental na recuperação dos pacientes. Além de tornar o ambiente mais acolhedor e aumentar a autoestima dos internos, eles ajudam na solução de problemas extrahospitalares.

O pequeno Enzo Pereira, 10 meses, ainda não fala, mas demonstra claramente suas emoções. Reclamou e ficou bravo quando o voluntário Gabriel Monteiro, 30, saiu do quarto onde o bebê está internado no Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB). Minutos antes, no entanto, a expressão era outra: um sorriso estampava o rostinho do menino e as pernas ensaiavam pulos. Tudo ao som da canção Jujuba que o Gabriel cantava. Por um momento, o quarto do hospital lembrou uma cena muito familiar. “Enzo sempre gostou de música, tocam violão lá em casa também”, explica a mãe Talita Pereira, 22.

O trabalho de Gabriel, assim como o de vários outros voluntários, permite que o paciente se sinta mais acolhido, menos ansioso e tenha mais coragem para enfrentar a doença. No caso de Enzo, um neuroblastoma (um tipo de câncer) é o problema. No início do ano, Gabriel se juntou à equipe da Associação Brasileira de Assistência às Famílias e Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias (Abrace), instituição filantrópica, declarada de utilidade pública. Desde então, dedica parte do tempo no projeto Sinfonia da Saúde no HCB. “É um prazer ajudar as pessoas, gosto muito de crianças”, explica o jovem formado em física.

A psicóloga e assessora de mobilização e voluntariado do HCB Ana Cristina Santiago, 35, explica que a ajuda dos voluntários é fundamental. “A criança não deixa de ser criança por causa do tratamento. Precisa e tem o direito de brincar. Torna-se necessário um espaço lúdico a fim de que se sinta mais à vontade”, conta. “Já vi pequenos na quimioterapia chorando muito. Assim que o músico chegou, ela parou na hora”, completa.

Um estudo feito pelo Registro Hospitalar de Câncer (RHC) do Hospital Amaral Carvalho, em Jaú, no interior de São Paulo, divulgado em 2009, mostrou que as chances de cura aumentaram em até 11,6% em cidades onde havia voluntários. De acordo com outra pesquisa da Abrace, a atuação da instituição ao longo dos 27 anos de existência contribuiu para que cura do câncer infantojuvenil passasse de 50% para 70% e o abandono ao tratamento caísse de 28% para zero.

Outros programas

Além do Sinfonia para a Saúde, o HCB conta com outros programas. Ao todo, são 13 grupos e 153 voluntários. Entre eles estão, por exemplo o Alegria Alegria, que proporciona atividades recreativas; o Contadores de Histórias; e o Amigo do Leito, que permite que um voluntário fique com o paciente internado enquanto o parente pode descansar ou resolver pendências fora do hospital.

Há pouco mais de duas semanas, o servidor público Rogério de Moraes, 49 aderiu ao Amigo do leito. “Estava com tempo disponível e resolvi aproveitar. É gratificante, você cresce como pessoa. O mundo nos sufoca e a gente acaba ficando muito no eu”, comenta.

A presidente voluntária da Abrace, Ilda Ribeiro Teliz, 62, explica que há um processo de qualificação, com palestras e entrevistas, para que a pessoa se torne voluntária. “Muita gente vem aqui, quer ajudar, mas, às vezes, não está bem, apresenta depressão. Você precisa estar bem para poder cuidar dos outros”, explica. “O trabalho mais importante é oferecer qualidade de vida. Se promovo um passeio, por exemplo, consigo melhorar a autoestima de alguém e isso faz diferença no sistema imunológico”, avalia.

Mais exemplos

No Hospital de Base (HBDF), também há diversos trabalhos voluntários. Um deles é promovido pela Associação dos Amigos do HBDF. Desde que foi criado, em 1998, providencia o que for necessário para o bem-estar do paciente, em situações de caráter emergencial e provisório. Remédios, agasalhos, material ortopédico e brinquedos são alguns dos exemplos.

Há 30 dias, a Associação também abriu um bazar ao público. Lá, há roupas, sapatos e agasalhos que são vendidos a preços simbólicos ou doados para os pacientes do hospital. Fica aberto às terças, às quartas e às quintas, das 8h às 16h. Antônio da Silva, 33, internado há oito dias por causa de um cálculo renal, era um dos visitantes do local. “Estou precisando de roupa, a minha acabou. Acho bom para quem veio ao hospital desprevenido, às pressas, como eu”, diz. “Não tenho televisão no meu quarto, então, aqui me distraio”, completa.

A voluntária Doli Marina Gonçalves Scarpelini, 62, dedica grande parte do seu tempo à Associação e está por trás da melhora de muitos pacientes. “Ser voluntária é ter um amor incondicional ainda mais por estar em um ambiente hospitalar, num limiar entre a vida e a morte. É ver no sofrimento do outro a possibilidade de ajudar”, afirma.

Depoimento

“Sempre quis ser voluntária, desde que era criança. Como estudava e trabalhava, não tinha tempo. Depois de passar por um acidente e ficar no hospital, vi as dificuldades e as necessidades de ter um amigo ao lado. Hoje, participo do Amigo do leito no HCB e é muito bom. A gente volta a ficar feliz, sua vida fica mais completa. Na semana passada, fiquei com a família do Cauã, de 1 ano e 10 meses, que estava com suspeita de leucemia e teve alta. Brinquei com ele, é muito esperto”.
Rita Moura Silva, 48, pianista e voluntária da Abrace

Reconstruindo a autoestima

Referência no tratamento de pacientes vítimas de queimaduras, o Hospital Regional da Asa Norte (Hran) tem se especializado também nas cirurgias plásticas de reconstrução. Implantes de pele e mamários após a retirada de tumores, soluções para lábio leporino e restauração de membros traumatizados são alguns dos procedimentos realizados pela equipe do hospital inaugurado em 1984.

Os médicos do Hran também operam deformações decorrentes de traumas severos, vítimas de lesão medular com escaras do contato prolongado com camas e cadeiras de rodas, e pacientes que fizeram cirurgia bariátrica (redução de estômago). Segundo a chefe da Unidade de Cirurgia Plástica do hospital, Nadja Alexim, o aumento no número e na variedade de procedimentos não exigiu grandes expansões estruturais e orçamentárias.

“Foi uma mudança de gestão. Criamos equipes multidisciplinares para cada setor da cirurgia plástica. Existe um time para a pós-bariátrica, um outro para os labiopalatais e assim por diante”, explica. Para Nadja, a mudança se reflete até na relação entre o profissional e o paciente. “A reconstrução mamária é realizada em mulheres mutiladas, o câncer de pele tem maior incidência em idosos e a fissura labiopalatal é uma patologia infantil. Cada grupo desses exige uma atenção diferente, um protocolo de tratamento distinto”, diferencia.

Prestes a concluir a reconstrução mamária, a educadora Maria de Jesus Alves, 59, é só sorrisos ao falar do Hran. “Tenho atendimento VIP”, brinca. Vítima de um câncer de mama em 2004, só conseguiu iniciar o ciclo de plásticas sete anos depois. . “A demanda é enorme. Não adianta espernear, mesmo os pacientes de fora do DF precisam do mesmo atendimento”, minimiza.

Atenção pioneira

Até outubro de 2012, sete estados ainda não dispunham de hospitais públicos credenciados para redução de estômago, segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica. No caso das cirurgias plásticas pós-bariátricas, recomendadas para retirar o excesso de pele após a perda de peso, o procedimento sequer integra a lista de doenças tratáveis do Sistema Único de Saúde (SUS). Mesmo no setor suplementar, são raras as tabelas de planos de saúde em que consta a cirurgia.

Para os bebês com lábio leporino e/ou fissura palatina, o quadro é ainda pior. Poucas unidades de saúde realizam o procedimento e a oferta de cirurgiões pediátricos é cada vez menor. “Os bebês passam por uma série de cirurgias, cada procedimento tem uma idade certa. Se o paciente mora em outra cidade, a mãe e a criança precisam vir ao hospital várias vezes por ano”, explica Nadja.

As filas seguem como um entrave à realização das operações. Para cirurgias com menor grau de urgência, o tempo de espera pode ser contado em anos. “Tem mulher esperando a reconstrução da mama há oito, nove anos. Não posso negligenciar vítimas de trauma ou recém-nascidos para retirar pele e implantar mama”, reconhece a coordenadora do setor.

Em 2012, foram realizadas entre 100 e 120 cirurgias por mês. Apesar das dificuldades e da lista de melhorias ainda a cumprir, Nadja exalta as melhorias dos últimos dois anos na área. “Temos um atendimento melhor que a rede privada em cirurgias plásticas”, garante. “Se você sofre um acidente e precisa de um enxerto, uma reconstrução, no hospital privado eles vão resolver de modo improvisado. Aqui, existem cirurgiões plásticos 24 horas por dia que tratam exclusivamente desses casos”, finaliza.

Depoimento

“Sempre fui uma mulher bem disposta, mas em 2005, comecei a perder peso, me sentir mal. Descobri um nódulo no bico do peito, que retirei três meses depois. No começo não quis fazer a reconstrução. Queria saúde, e não, beleza. Agora, coloquei tudo em ordem. Recebi alta esta semana e estou me achando maravilhosa.”
Maria Clementino, 69, dona de casa

“Foi uma mudança de gestão. Criamos equipes multidisciplinares para cada setor da cirurgia plástica. Existe um time para a pós-bariátrica, um outro para os labiopalatais e assim por diante”
Nadja Alexim, chefe da Unidade de Cirurgia Plástica do Hran

“Ser voluntária é ter um amor incondicional ainda mais por estar em um ambiente hospitalar, num limiar entre a vida e a morte.”
Doli Scarpelini, Volluntária

Números

800 consultas são realizadas por mês no setor de cirurgia plástica do Hran

500 procedimentos cirúrgicos foram feitos entre janeiro e maio de 2013

25% da população declara que faz trabalho voluntário

67% dos que fazem serviço voluntário conciliam com o trabalho

54% dos que praticam essa atividade o fazem com frequência definida