A vida pede leveza

10/12/2015

A dança no hospital

Leonardo Meireles

A vida pede leveza. Exige. Não que os dias de hoje são piores que os de ontem; os problemas atuais tornaram o mundo mais pesado; a sociedade moderna mata o humano que existe em cada um de nós. É mais complexo que isso. A vida sempre, desde o primeiro organismo unicelular, pede leveza. Exige. Quer exemplos? Havia dinossauros, mas alguns voavam. A Idade Média pesava toneladas, entretanto, a música trazia a diversão e o sonho. A crise de 1929 veio com aqueles concursos de malucos de dança, verdadeiras maratonas. O concreto de Brasília, a poeira do cerrado, as mortes nos canteiros de obras foram acompanhados pela arquitetura de Niemeyer e o urbanismo de vazios de Lucio Costa.

Estava no Hospital da Criança. O que se vê ali faz a pessoa se dobrar em si mesma, cobrir os olhos e fechar os punhos, com raiva de qualquer divindade que deixa seres tão pequenos naquelas situações. As cadeiras de rodas, as macas, as veias expostas, os corpos com formas tão diferentes. Meninos e meninas correm, gritam e riem. Aqueles que podem, que conseguem. Os adultos olham sem ânimo para TVs, celulares, papéis. Vez ou outra, chamam a atenção dos filhos, quase não querendo chamar.

Um homem sobe em um tablado onde repousa um piano. Aquele instrumento de cor escura, jeitão paquidérmico, perfil de um animal que destrói ao se mover. Porém, o que se movimenta é o homem, que abre a tampa e mostra as teclas. Faz um leve aquecimento e experimenta aquela combinação de preto e branco e manda Fascinação. Sei que a música é antiga (de 1905, segundo o Google), mas a primeira imagem que me vem, claro, é de Elis Regina. A voz dela aparece na minha cabeça, nem preciso fechar os olhos. O homem toca com calma, todas as notas claras.

“Mãe, mãe, olha lá!”, a voz de uma criança me tira daquele devaneio. A mãe faz um sinal para ela, que corre em direção ao piano. Um sorriso aberto, daqueles que não só aparecem na boca, mas nos olhos, nos braços, nas pernas. Primeiro, ela só olha para o homem. Negra, bem magra, os cabelos presos, a pequena não titubeia: começa a dançar. Faz movimentos delicados com os braços, círculos no ar. Dá passos no ritmo da música e nem se importa se há alguém olhando ou passando. É uma bailarina nata.

Por cinco ou 10 minutos, com meu filho no colo, toda aquela dor vai embora. E pelo o que vejo, muitas crianças e adultos desviam o olhar das brincadeiras ou das ocupações para ver aquela cena, ouvir aquela música. Um dueto formado no improviso e que atinge em cheio o objetivo de um espetáculo artístico: expandir a mente humana. Uma atendente chama a menina, que com a mesma alegria vai em direção da mulher (o Hospital da Criança tem uma característica especial: os funcionários tratam todos os pacientes da mesma forma carinhosa e profissional). Logo depois, eu e meu filho também somos chamados. O mundo exige nossa presença novamente, então, temos que seguir. Mas, agora, mais leves. Como a vida exige.

(Correio Braziliense 11/12/2015)

Foto: arquivo HCB