A separação de Lis e Mel

03/05/2019

O Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) foi o primeiro hospital do Distrito Federal a realizar uma cirurgia de separação de gêmeos xipófagos craniópagos (nome dado a irmãos gêmeos siameses que nascem conectados pelo crânio). A cirurgia, que teve início às 6h30 da manhã de sábado (27/04/19) e terminou às 2h30 da madrugada do domingo (28/04/19), separou as irmãs Mel e Lis Aragão. As duas estão internadas na Unidade de Terapia Intensiva do HCB e respiram sem ajuda de aparelhos.

Casos de craniopagia são raríssimos – ocorrem uma vez em cada 2,5 milhões de nascimentos. Esta foi a primeira vez que esse tipo de cirurgia foi realizado no DF – é a terceira vez no Brasil. A cirurgia foi coordenada pelo neurocirurgião do HCB, Benício Oton de Lima, e pelos líderes de equipe Luciano Alves Fares (anestesiologista do HCB), Ricardo de Lauro (cirurgião plástico da Unidade de Queimados do Hospital Regional da Asa Norte - HRAN); e por Carlos Eduardo da Silva (enfermagem do HCB). Na segunda-feira (29/04), eles deram detalhes da separação de Mel e Lis.

“Foi feito um planejamento para a cirurgia, pesquisa, conversas com o expert em gêmeos craniópagos dos Estados Unidos”, disse Oton de Lima, que buscou assessoria de cinco profissionais do Montefiore Medical Center (em Nova York). O neurocirurgião explicou que cada parte da equipe tinha seu momento de atuação: “Antes, teve um momento da neurocirurgia para a drenagem lombar. A separação tinha vários passos: a anestesia, a cirurgia plástica fazendo o serviço de obter os retalhos de pele; depois, a neurocirurgia para fazer a separação do osso, do cérebro e da meninge na base do crânio. Ao final, fechamos as meninges, o osso e a pele”.

Mel e Lis chegaram ao HCB em 17/08/18, com apenas dois meses de idade, para começar o atendimento multidisciplinar (neurocirurgiões, anestesiologistas, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, psicólogos e nutricionistas). A cirurgia foi planejada desde então, com muitas reuniões multidisciplinares, ensaios – de posicionamento, manobras, separação das mesas cirúrgicas, etc. – e muita organização.

Para o anestesiologista Luciano Fares, foi o esforço coletivo da equipe que possibilitou a cirurgia. “Se nós não nos uníssimos, não íamos conseguir separá-las. Juntamos uma equipe altamente capacitada e essa união promoveu a separação das duas – esse foi o maior ensinamento que tivemos no HCB”, afirmou.

As equipes foram divididas em duas: todos da equipe da Mel usavam toucas, máscaras e luvas amarelas; os da Lis, cor de rosa. Da mesma maneira, também foram separados os instrumentos, insumos e até os papeis e os estetoscópios tinham as cores específicas de cada uma. A cirurgia foi feita em 36 etapas, descritas em detalhes para que toda a equipe estivesse alinhada. A sinergia e união de todos era evidente.

“Ofereci todo meu carinho, dedicação e empenho para organizar, da melhor forma possível, a minha equipe e as outras unidades do Hospital que estavam envolvidas – o laboratório, a fisioterapia, o banco de sangue. Está sendo um sucesso graças à equipe que trabalhou, do início ao fim, com um mesmo objetivo”, explicou o enfermeiro Carlos Eduardo da Silva.

A direção do HCB disponibilizou tudo que foi necessário para a realização da cirurgia. Foram mobilizadas equipes de apoio, como manutenção, engenharia clínica, laboratório, agência transfusional, hotelaria, farmácia, nutrição, limpeza, etc. Inclusive, foi preparada no centro cirúrgico uma sala de apoio, com transmissão de vídeo da cirurgia, para que os profissionais que não estivessem operando pudessem descansar e se alimentar assistindo o que estava acontecendo. Isso fez com que ficasse na sala apenas quem realmente estava envolvido em cada etapa, assegurando a segurança das crianças e a eficiência da cirurgia.

Pais das gêmeas – Muito amorosos, os jovens pais das pacientes Mel e Lis, moradoras da Ceilândia, são Camilla Vieira Neves, 25 anos, consultora Fiotec no Ministério da Saúde, e Rodrigo Martins Aragão, 30 anos, supervisor comercial. Eles são bastante reservados e procuraram preservar as crianças até que o resultado da cirurgia fosse positivo. “Quando a Lis saiu, caiu realmente a ficha de que elas estavam separadas, nosso sonho se realizou, a espera acabou e aquela guerra a gente venceu. Tem outras batalhas pela frente, mas essa, a gente conseguiu vencer”, disse Camila. Mel e Lis nasceram em 01/06/18 no Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib). O neurocirurgião do HCB, Dr. Benício Oton, foi chamado para acompanhar o caso desde o ventre da mãe e também assistiu o parto das meninas. Atualmente, elas estão internadas na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital da Criança de Brasília, onde devem permanecer por 15 dias.

Veja o estado de saúde das duas por meio dos boletins médicos abaixo: