A cultura da segurança deve ser uma prioridade da direção

22/11/2013

Diretor de Relações Institucionais e Coordenador de Educação do Consórcio Brasileiro de Acreditação (CBA), formado em enfermagem e especialista em administração hospitalar e acreditação internacional, Heleno Costa Junior concedeu uma breve entrevista ao Hospital da Criança de Brasília durante a Primeira Semana de Gerenciamento de Riscos e Segurança do Paciente (20/11).

Heleno esclareceu dúvidas sobre segurança do paciente e a importância e benefícios da acreditação.

HCB -  O que significa a cultura da segurança?

Heleno Costa: Significa a oportunidade de se construir uma prática assistencial baseada em conceitos, métodos e modelos consistentes. Por eles, os riscos, o perigo e a insegurança na execução dos processos podem ser minimizados, mitigados ou evitados. A cultura da segurança implica na avaliação e no monitoramento contínuo dos processos e serviços, cujo objetivo principal deve estar centrado na prevenção dos riscos e eventos adversos. E não somente na reação à ocorrência de problemas.

O movimento mundial para a criação da cultura de segurança em saúde, atualmente liderada por algumas entidades de referência global como a própria Organização Mundial da Saúde (OMS), tem alcançado maior espaço nas discussões de estudiosos, pesquisadores e mesmo dos gestores e profissionais. Mas ainda precisa de ações mais consistentes para pavimentar o caminho para uma implantação perene desta cultura.

HCB -  Quais os desafios na implantação de um programa de segurança do paciente?

Heleno Costa: Podemos destacar o fato de que a decisão da criação de uma cultura de segurança deve ser originada da alta direção da instituição. E, muitas das vezes, os membros da direção não têm o conhecimento ou envolvimento necessário para compreender os riscos inerentes aos processos assistenciais e mesmo gerenciais, o que dificulta a possibilidade de se implantar a consciência da segurança.

Outro aspecto tem haver com o fato de que o comprometimento sobre a prática segura deve ser semeada em caráter individual. Ou seja, cada profissional deve entender a importância da segurança em sua prática e em suas atitudes. Somente a partir de uma conscientização individual é que poderá ser construída a consciência coletiva e, então, a condição de se constituir a cultura de segurança a nível institucional.

HCB - Quais os benefícios da acreditação na segurança do paciente?

Heleno Costa: A acreditação é uma metodologia que traz em seu conjunto de padrões e requerimentos um acervo de conceitos e princípios voltados à melhoria contínua da qualidade e segurança dos processos de cuidado aos pacientes em uma instituição de saúde. Existem padrões específicos que tratam da definição e implantação de um programa de gerenciamento de riscos e melhoria, cuja ação central tem foco na análise proativa de riscos e perigos.

A acreditação exige a criação de uma estrutura de gestão, cujos componentes devem ter qualificação e capacitação especializadas para definir e desenvolver ações planejadas, voltadas para o monitoramento contínuo dos processos assistenciais e gerenciais. Isso possibilita que o melhor e mais seguro nível de execução dos processos e serviços seja alcançado em uma instituição de saúde, independente de seu tipo, tamanho e complexidade.

HCB - O que você recomenda como prioridade para um Hospital infantil?

Heleno Costa: Recomendaria a utilização das metas internacionais de segurança do paciente, que estão contidas no Manual Internacional de Padrões de Acreditação aplicado pelo Consórcio Brasileiro de Acreditação (CBA). Entre as seis metas internacionais definidas no Manual Internacional de Padrões de Acreditação CBA-JCI podemos destacar para um hospital infantil duas delas. A primeira trata da identificação correta de pacientes por meio do uso de dois identificadores individuais, que não sejam o número do quarto ou a localização do paciente. A segunda trata da redução das lesões decorrentes de quedas de pacientes – que, para o público infantil, tem elevada importância em função da própria vulnerabilidade deste perfil de pacientes.

HCB -  Qual a importância do papel do paciente nesse modelo?

Heleno Costa: A importância está no fato de que, a partir da educação e informação adequadas, prestadas de forma compreensível pela instituição e pelos profissionais, o paciente pode participar ativamente da discussão e definição de seu tratamento. No caso de instituições de perfil pediátrico ou infantil, se faz necessário envolver diretamente a família ou seus representantes legais, a fim de que possa ser garantido o direito da participação destes nos processos do cuidado, como no caso da necessidade da apresentação de consentimentos informados que são aplicados nos casos de cirurgias, anestesias, sedações, transfusões e outros procedimentos ou tratamentos de riscos, o que também está preconizado no Manual Internacional de Padrões de Acreditação CBA-JCI.

HCB -  E o modelo de gestão? Impacta na segurança do paciente?

Heleno Costa: Sem dúvida. Como dito anteriormente, a construção da cultura da segurança deve ser uma prioridade da direção geral. O planejamento estratégico deve prever objetivos e princípios que tratem especificamente da melhoria da qualidade e segurança assistencial, uma vez que a missão de qualquer instituição de saúde é o cuidado prestado ao paciente. O que diferencia é o tipo ou perfil destes pacientes, como no caso dos hospitais voltados ao público infantil.

O modelo de gestão deve prever a utilização de um conjunto de ferramentas e instrumentos  estruturados, a partir dos quais os gestores ou lideranças devem ter competência e condições de desenvolver suas ações, incluindo também o monitoramento contínuo dos processos e serviços, avaliando o desempenho global da instituição. O processo de acreditação desenvolvido e aplicado pelo CBA-JCI tem padrões específicos voltados aos métodos e instrumentos do modelo de gestão aplicado pela instituição de saúde, para os quais um conjunto de requerimentos são rigorosamente avaliados por avaliadores especializados, que têm experiência em administração de serviços de saúde em geral.