Meu nome é Antônio Miguel!

03/06/2015

Em 2012, Antônio Miguel Ferreira participou do vídeo institucional do Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB). Na época com seis anos de idade, ele estava na brinquedoteca do HCB quando a equipe de filmagem apareceu e gravou seu depoimento sobre o hospital. Agora, aos nove anos, ele fala sobre seu dia-a-dia:

“Estudo no quarto ano do ensino fundamental, gosto de ciências, geografia e matemática. Ainda não sei o que vou ser quando crescer. Eu tenho duas propostas, mas estou em dúvidas. Uma é médico, outra é engenheiro eletrônico. Não sei porque, me interessei. Minha irmã está no curso de enfermagem, aí eu me interessei por ser médico.

Minha irmã tem 16 anos, apronto muito com ela. Mexo nas coisas dela; fico fazendo maldade, quando ela está lá sentada, assim, eu cutuco ela; pego o celular da minha mãe e fico brincando, mandando mensagem, faço um montão de coisas. No próximo aniversário da minha irmã, vou jogar ovo na cabeça dela, anota aí”.

A mãe de Antônio Miguel, Sandra Ferreira, conta que ele veio para o HCB transferido do Hospital de Base de Brasília e que é paciente renal crônico, mas nunca precisou fazer hemodiálise. “E nem vou fazer!”, garante o garoto, mas fala: “Já fiz várias cirurgias. Se for contar, dão inúmeras – umas 14, umas 20, umas 40! Se forem 40, agora vão ser 41, porque eu vou fazer mais uma”.

Sandra explica o motivo de tantas operações: “Ele nasceu com má-formação dos órgãos internos, do sistema urinário e digestivo. Conforme ele foi crescendo e fazendo as cirurgias, tinha que fazer outras. Foram inúmeras cirurgias, mesmo. Pelas nossas contas, seriam 30, mas aí a gente parou de contar”. Antônio Miguel completa: “Minha mãe disse que, assim que eu nasci, já fui para o centro cirúrgico”. Dois meses depois de nascer, ele já havia passado por seis operações.

Hoje o menino já entende a necessidade de voltar ao centro cirúrgico, mas confessa que não se sente confortável com essa situação: “Já estou acostumado, mas fica dando uma angústia quando entro lá dentro. Fico pensando ‘será que eu vou voltar?’, é estranho. Na hora que a médica fala ‘vai ter que internar’, ‘vai ter que fazer uma cirurgia’, eu já arregalo os olhos, fico sem ar. 50% das vezes que eu fico internado é por causa de infecção urinária e 50%, pelas outras coisas, como cirurgia”.

Antônio Miguel faz duas ou três cirurgias por ano. Ele toma cuidado, porém, para que essa rotina não atrapalhe seu desempenho na escola. “Quando é cirurgia, se eu vou ficar uns dias no hospital, peço para a professora mandar as provas”, garante o menino, e completa: “Peço para o meu pai, minha mãe, minha irmã, alguém da minha família ir lá na escola pegar minhas provas, tudo do dia, do final do mês, do outro dia, para levar para o hospital, para eu fazer no hospital. Continuo estudando”.

O garoto, que estuda em Samambaia e se sente muito querido por todos da escola, conta que já foi premiado no colégio: “Eu gosto de ir à escola e nunca falto. Eu sou o único que foi com uniforme o ano todo, assim, sou o único da classe, da escola toda. Se não fossem as cirurgias, eu não tinha nenhuma falta. Eu ganhei um tablet por isso”.

Quando não está estudando, Antônio Miguel encontra formas de se divertir: “Tem dias que eu fico lá no tédio, sem ter o que fazer, aí eu fico só sentado. Às vezes não tenho o que fazer, aí eu vou jogar bola com os meus amigos”. Ele diz, porém, que não é um grande jogador: “No máximo, fiz dois gols. Torço para o Flamengo e gosto do Léo Moura, só que ele foi para outro time. Ele era o capitão, o melhor de todos”.

Além de jogar futebol, o menino gosta de se distrair com filmes de terror, e garante que não se assusta. “É tudo mentira, computadorizado, por que é que tem que ter medo? No começo a gente sente mesmo, a gente imagina a coisa quando vai dormir, mas depois...”, explica. Ele acrescenta: “O filme que eu amo é A Hora do Pesadelo. Aquele, você pode colocar uma tela de TV desse tamanho na minha frente, que eu assisto. É massa!”.

Quando tinha seis anos, Antônio Miguel participou do vídeo institucional do HCB. “Eu estava brincando na brinquedoteca e eles começaram a filmar”, conta. Ele narra que, enquanto brincava, um cinegrafista da equipe entrou e, “do nada, falou ‘gente, eu estou querendo filmar um negócio aqui’ – eu não lembro das palavras. Ele falou ‘você podia ser filmado; você pode ser, vamos dizer, o astro, porque você tem cara de ser filmado’. Eles fizeram duas perguntinhas e adoraram minhas respostas, aí acabaram fazendo três, quatro, cinco, seis, sete, parecia que eu estava sendo entrevistado, mesmo”.

No depoimento para o vídeo, Antônio Miguel elogiou a atenção que recebe dos médicos. Hoje, ele ainda gosta muito da equipe que o atende, mas admite que se sente cansado do tratamento: “Tomara que eu nunca mais venha, porque é muito chato. Pego ônibus, fico enjoado por causa do sol batendo na cara”. Mesmo assim, ao ser questionado sobre o que mais gosta no hospital, ele responde firme: “De tudo! Aqui é minha segunda vida”.

 

Texto e Fotos: Maria Clara Oliveira
Edição: Carlos Wilson
Coordenação de Comunicação: Ana Luiza Wenke