“Foi uma luta para chegar aonde chegamos”

O pediatra Oscar Mendes Moren, 86 anos, chegou a Brasília em 1960, e naquela época não sabia o grande desafio que teria em sua frente. Ele acabava de voltar de Nova York, onde concluiu a sua residência médica, e foi indicado para assumir a pediatria do Hospital Distrital de Brasília, que é hoje o Hospital de Base. Moren diz que isso não estava nos seus planos, mas o resultado foi imensamente satisfatório. Ele ficou por 30 anos no cargo, e foi o responsável por mudar por completo o cenário da medicina pediátrica em Brasília. Nas vesperas do anivesário de 4 anos do Hospital da Criança de Brasília (HCB), ele deu esse depoimento quando realizava uma visita ao Hospital.

HCB - Depois de se formar na Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, o que o levou a escolher a pediatria?

Oscar Moren - Isso começou quando eu estava no quinto ano da minha graduação. Eu fui convidado por um dos professores para fazer um curso de pediatria. Quem ficasse com o primeiro lugar iria trabalhar na enfermaria da Escola com esse professor, e eu acabei sendo o primeiro. Foi esse professor quem me estimulou. Ele me deu muita ajuda. A partir daí eu optei pela pediatria. Quando me formei, fiz residência em pediatria no Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro por dois anos. E eu também já estudava inglês, daí decidi ir até Nova York para também fazer uma residência lá. Foi no The Long Island Jewish Hospital, em 1959. Quando eu voltei para o Rio, fiquei um ano e três meses parado, sem saber o que fazer. Não tinha concurso e eu não tinha dinheiro para abrir um consultório. E meu chefe lá em Nova York veio ao Brasil para participar de um congresso e não entendeu porque eu estava sem emprego, pois nos EUA não faltam oportunidades depois que se termina uma residência médica. Ele chegou a me convidar para voltar com ele aos EUA, e me garantiu que eu ganharia US$ 19.000 por ano. Eu pensei por um mês, e decidi aceitar a proposta. Minha família começou a chorar por causa da mudança, foi uma coisa terrível. No dia seguinte, quando eu fui deixar a carta nos correios com a minha resposta, meu telefone tocou. Era o doutor Sávio Pereira Lima. Ele era de Brasília e foi até o Rio atrás de um pediatra, e um dos meus contemporâneos no Hospital dos Servidores, o doutor Francisco da Rocha, me indicou porque eu tinha o melhor currículo. Foi aí que acabei vindo para Brasília. Mas eu não pedi nada, nem estava pensando em ser chefe de coisa nenhuma. E acabei ficando 30 anos na chefia. Aí eu organizei a pediatria, criando treze setores, para algumas especialidades médicas, e assim foi a minha vida.

HCB - Quando o senhor assumiu a pediatria do Hospital de Base em 1961, quais eram os principais desafios encontrados pelos pacientes e pelos médicos que atuavam nessa área na época?

Oscar Moren - Era uma dificuldade imensa, primeiro porque no Hospital só tinha a parte térrea, onde funcionava a internação, a emergência etc. Ele não estava completamente construído. Depois foi possível fazer internações no segundo andar, e só mais tarde que o hospital ficou pronto. Aí a gente pôde levar a pediatria para o sétimo andar. Mas a equipe de médicos era muito heterogênea. A não ser eu, praticamente nenhum deles tinha feito pós-graduação ou residência. Pelo fato de não existirem muitos médicos especializados, eu estimulava a criação dos especialistas. O doutor Edvaldo Cavalcante, por exemplo, que é hematologista no Hospital da Criança, fez residência comigo. Não havia nenhum dermatologista no Hospital Distrital, e eu o orientei a seguir essa área. E assim eu fazia com os melhores residentes. Quando eu me aposentei oitenta por cento do meu estafe era de ex-residentes que eu orientava por especialidade.

HCB - Antes da criação da pediatria no Hospital de Base, como era o atendimento às crianças?

Oscar Moren - Foi uma luta porque eu sofri para criar um serviço de pediatria no Hospital. Logo no início, foi determinado que as crianças internadas só poderiam ser visitadas duas ou três vezes por semana. Mas eu dizia que a criança precisava ser visitada mais vezes. E toda criança até quatro anos era obrigada a ser internada com um acompanhante. Foi difícil para mim, porque nem espaço físico tinha. Eu cheguei a pedir a compra de poltronas para os acompanhantes, mas a administração do Hospital não via isso com bons olhos. Era uma administração de adultos, sabe? Ele foi construído sem pensar nas crianças, como se elas não existissem. Basta dizer o seguinte: quando me deram o sétimo andar não tinha um banheiro para crianças, todos os banheiros eram banheiros de adultos. Eu tive que transformar até os banheiros para as crianças. Foi uma luta danada para chegar aonde nós chegamos.

HCB - Em 1986, a definiu-se que a Unidade de Pediatria seria terciária. O que levou a essa mudança?

Oscar Moren - Quando o Hospital Distrital se tornou Hospital de Base esperava-se que todas as unidades do Hospital se tornassem unidades terciárias. Mas a única unidade que fez isso foi a pediatria. As outras continuam atreladas ao pronto-socorro até hoje. Isso é totalmente impraticável. A prioridade é para a emergência e acaba que não sobram leitos para os casos específicos. O certo é que aquilo que não é feito em unidades básicas, seja feito no hospital. Como é hoje  no Hospital da Criança, que é a continuação da unidade de pediatria do Hospital de Base. Você não vai trazer para esse hospital problemas que podem ser tratados em unidades básicas como: gripe e diarreia. Esse hospital é para os grandes problemas da medicina pediátrica.

HCB - Como o senhor avalia a participação do Hospital da Criança para a rede de saúde pública do DF?

Oscar Moren - O que posso dizer que até agora é que fizeram um trabalho espetacular, e que pelo que vi, estão no caminho certo, principalmente em termos de uma administração. Uma coisa que poderia ser feita, e que existe nos Estados Unidos, é a construção de um hotel para os pais das crianças internadas aqui. Isso serviria não só para a população do Distrito Federal, e mas também para todo o Brasil.

 

Texto e foto: Augusto Almeida
Edição: Carlos Wilson 
Coordenação de Comunicação: Ana Luiza Wenke