Férias interrompidas

Aos dois anos de idade, Vivian Cunha Iliopoulos distribui sorrisos pelo Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB). A menina veio do Canadá com os pais, a brasileira Fabiana Cunha e o canadense Antonios Iliopoulos, apenas para um passeio, mas ficou no Brasil para fazer tratamento oncológico. Antes de uma das consultas, enquanto Vivian brinca no hall central com o pai, Fabiana fala sobre a adaptação da família ao Brasil e ao hospital.

“A gente morava no Canadá; tínhamos vindo para passar umas férias aqui e acabamos descobrindo que ela tem leucemia linfoide aguda – foi em outubro de 2013. Ela estava pálida, não estava comendo, estava com a barriguinha estufada, teve diarreia. Como estava em fase de dentição, muitos médicos falavam que a falta de apetite era do dente, e as febres também, porque eram febres intercaladas. O que me levou a pesquisar, mesmo, é que ela teve quinze dias de diarreia, e continuava com a barriga estufada, sem estar comendo nada. Aquilo não fazia sentido.

Eu levei ao médico; ele pediu os exames e, em dois dias, eu já fiquei sabendo o diagnóstico. Quando voltei ao consultório, já estava tudo encaminhado para o HCB. Foi muito difícil, uma fase em que eu tive que ficar aqui no hospital o tempo inteiro. Meu marido ficou completamente perdido naquela época, porque ele não conhecia direito ninguém aqui, nem nada do Brasil, nem conhecia a língua – ele entende bem, mas falar, fala mais ou menos. Eu queria ajudá-lo, e ao mesmo tempo não tinha como sair do hospital.

Tudo no Canadá ficou para ser resolvido: casa, trabalho, tudo. A gente decidiu fazer o tratamento todo aqui. Está dando certo, então a gente não quis fazer nenhuma mudança, porque eu acho que, agora, o principal é pensar nela. Meu marido é chef de cozinha, e a gente acabou abrindo um restaurante, que graças a Deus está indo muito bem.

A Vivian não sentiu muito a mudança, porque ela tinha nove meses quando a gente chegou. Apesar do meu marido ter família no Canadá – o irmão dele mora lá, o primo mora lá –, para ela é muito bom ter contato com as tias, com os primos, com avô, com avó, toda criança gosta disso. Estamos na casa dos meus pais; a gente decidiu ficar lá, para a Vivian ter mais contato com essas pessoas.

Quando a Vivian está melhor, eu consigo ir ao trabalho no restaurante, já não estamos só dentro de casa. Hoje em dia, já dá para ter uma vida mais normal, então a gente está se adaptando, meu marido voltou a trabalhar. Para ele, era desesperador estar na casa do sogro, sem trabalhar, sem saber nada.

Uma notícia de câncer não é agradável para ninguém; o chão desmorona, é um tratamento muito sofrido. Na família do meu pai tem vários casos: meu pai já teve, minha avó, vários irmãos dele tiveram. Apesar de hoje já ter cura, é uma palavra que ainda amedronta qualquer pessoa. Por mais que ela esteja reagindo bem, tem aquele receio, porque ainda tem os cinco anos para tudo se completar.

A gente se pergunta se ela vai ter uma vida normal, se vai conseguir fazer tudo, ter energia para tudo, mas quando você vê a Vivian hoje em dia e quando entrou no hospital, isso é um sinal de saúde. E ela já está falando tudo! Palavras, mesmo, todas saíram em português. Ela não fala em inglês, mas entende o pai; ele fala em inglês com ela, a gente não quer que ela perca o idioma.

Hoje, com o restaurante, é muito difícil tentar fazer planos; pode acontecer de a gente vender o restaurante e voltar para o Canadá. Por enquanto, nossos planos são de ficar aqui, até porque o restaurante tem pouco tempo e está tudo certo.

Para a Vivian, desejo tudo de melhor; o que ela tinha que passar de ruim, espero que já tenha passado agora. Tudo o que eu tento planejar, fazer, é pensando no melhor pra ela. Só espero que ela não escolha esse ramo de restaurante, porque dá muito trabalho.”