É importante ter muita força.

Desde os 12 anos sentia uma sede muito grande e bebia oito litros de água por dia. Não conseguia dormir pois ficava acordando para beber e fazer xixi. Meu rendimento na escola começou a cair e a minha mãe, muito preocupada, me levou ao médico. Depois de fazer vários exames, ninguém conseguiu descobrir o que estava provocando aquilo tudo.

Depois de um ano, parei de crescer; era mais alta que meu irmão e, de repente, ele ficou mais alto do que eu. Minha tireoide parou de funcionar e meus hormônios femininos estavam desregulados. Até que uma endocrinologista descobriu o motivo de minha sede: diabetes insipidus. A médica começou a testar vários remédios para acabar com minha sede e, depois de várias tentativas, acertou. Mas ainda não sabiam o verdadeiro motivo para eu ter parado de crescer..

Aos meus 15 anos, apareceu uma “manchinha” no exame de imagem da minha cabeça. Os médicos compararam com outros exames recentes. A “manchinha”, que não aparecia antes, agora existia. Me pediram para repetir o exame e ela cresceu consideravelmente. O médico recomendou uma biópsia, mas ninguém quis fazer já que era em uma área muito delicada. Os riscos eram muito grandes.

Depois de muito procurar, já com 18 anos, encontrei um médico que concordou em fazer a operação. Entretanto, segundo ele, o risco era de eu ficar vegetando ou falecer. Apesar disso, foi uma notícia ótima. Fiquei muito feliz.

Minha cirurgia foi no primeiro dia de dezembro de 2011. Tudo ocorreu bem. Fui para casa e continuei recebendo várias visitas. O resultado da biópsia demoraria 30 dias.

Quando foi no dia 27 de dezembro tive uma dor de cabeça que pensei que iria morrer. Era uma dor muito forte. Sentia uma pressão na cabeça muito intensa, vomitei muito e estava muito sonolenta. Minha mãe me levou para o pronto-socorro e diagnosticaram uma hidrocefalia (acúmulo de água no cérebro, que ocorreu devido à cirurgia para a biópsia). Os médicos optaram por me medicar durante três dias. No dia 31, fui novamente para a cirurgia. Lembro-me de acordar depois de operada e perguntar para a enfermeira se já era 2012.

Só fui acordar mesmo no dia 2 com a minha mãe me chamando. Lembro-me que fui direto para o Hospital da Criança saber o resultado da biópsia com o mesmo cirurgião. Se não fosse positivo, precisaria abrir minha cabeça de cima abaixo e tentar outra vez.

Fiquei sabendo que não seria necessária outra cirurgia mas, estava com câncer.

Nem consigo descrever a expressão que meus pais ficaram. Eu estava totalmente fora de mim. Tinha acabado de sair do hospital, estava muito feliz por não precisar abrir a minha cabeça, mas não tinha processado a informação de que estava com câncer. Nunca tive essa suspeita.

Quando saí do consultório, sentei em um banquinho e me acabei de chorar. Foi quando caiu a ficha. Chorei muito. Eu tinha uma imagem de que ninguém chega perto de quem tem câncer. Falei : “Mãe, ninguém vai chegar perto de mim!”. No mesmo dia, tive uma consulta com um oncologista e ele disse que eu começaria a quimioterapia assim que possível.

Comecei a químio dois dias depois e  meu organismo não reagiu bem. Passei muito mal. A única coisa boa foi que amei a comida do HCB, muito boa mesmo. Todos os dias a nutricionista me perguntava o que eu queria comer. Qualquer coisa que pedisse, ela trazia.

Depois de 7 dias voltei pra casa. O meu ciclo de químo seria a cada 21 dias. Mas, dentro desse intervalo, tive uma convulsão em casa. Foi pior do que todas as químios, pois não fiquei inconsciente. Via e sentia tudo o que estava acontecendo, mas não tinha controle sobre meu corpo. Sabia que estava me debatendo, me remexendo, mas não conseguia fazer nada.

 Me levaram para o pronto-socorro de novo. Na porta do hospital tive outra convulsão e, na frente dos médicos, mais uma. Foram 3 quase seguidas. Pedia pro meu pai para que, quando começasse a convulsão, me abraçasse bem forte. O abraço dele dava a sensação de que as convulsões parariam. Fiquei internada mais alguns dias por causa delas, e o meu cabelo começou a cair.

Voltei pra casa, muito incomodada com a queda.  Quando cheguei, fui direto tomar banho pra ver se eles caíam todos logo de uma vez. Foi muito ruim. Depois do banho, pedi para a minha mãe tampar todos os espelhos de casa, mas aí pensei que teria que me ver alguma hora.  Nesse momento chegou uma visita em casa para me ver. Primeiro disse para minha mãe que não queria ver ninguém e que ficaria no meu quarto. Tenho um irmão e uma irmã e eles sempre me deram muito apoio. Minha irmã ficou no quarto comigo até que eu disse para ela que alguma hora as pessoas teriam que me ver mesmo, que eu não ia ficar me escondendo de ninguém. Saí do meu quarto e não tive dificuldades de encarar esse medo. Ganhei uma peruca, mas nem sempre usava. Não me importava com o que as pessoas iram achar.

O que me deu muita força foi que o tamanho inicial do meu tumor, de  8 cm diminuiu pela metade com somente uma sessão de quimioterapia. Antes de fazer a segunda, tive um torcicolo muito forte..Fizeram uma tomografia e, para a surpresa de todos, não existia mais nenhum sinal do tumor.

Não tinha mais tumor! Chamaram os médicos - o que fez a minha cirurgia e o que aplicou a químio em mim - e eles também ficaram sem entender. Os médicos fizeram uma reunião e decidiram que eu deveria continuar com o tratamento. Eles não souberam falar se a químio foi muito forte para o tipo de tumor ou se o tumor foi muito sensível para aquele tipo de quimioterapia. Mas eu acredito em milagres. Para mim, particularmente, foi um milagre. Os médicos acreditam de um jeito e eu de outro.

Em janeiro, fevereiro, março e abril fiz as outras sessões de quimioterapia e me despedi do Hospital da Criança. Em maio, iniciei o tratamento com radioterapia em outro local. Tinha que ir todos os dias para o hospital fazer o tratamento, que durou um mês. Hoje preciso fazer só o acompanhamento, aqui no HCB.

A família é muito importante e foi fundamental para eu conseguir ter forças e passar por todas as etapas. É muito importante ter muita força e muita fé. É um período muito complicado na vida de todos, e pode acabar destruindo uma família se ela não souber lidar com a situação. Para os que estão passando pelo mesmo, recomendo um pouquinho de paciência. O tratamento vai acabar e seu cabelo vai crescer de novo.

Nota: Ingrid deu esse depoimento a Mariana Sadeck Cunha da Coordenação de Comunicação e Mobilização do HCB em agosto de 2013.