Artesanato na fila do transplante

Eliane Francisco Alves, 16 anos, é paciente do Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) há um ano. A artesã adolescente, que sorri enquanto sonha com um futuro como advogada, traz para as sessões de hemodiálise os chaveiros e animais que confecciona com miçangas – e que já são vendidos em Porto Alegre e Brasília.

“Com quatro anos de idade, quando eu morava no Goiás, comecei a inchar. Minha mãe viu e achou estranho, me levou ao hospital. De lá, eles me encaminharam para Brasília, porque não sabiam direito o que era. Aqui, descobriram que era síndrome nefrótica.

Estou em tratamento desde os quatro anos, mas faço hemodiálise três vezes por semana no HCB. Como meus rins não funcionam, a máquina faz o procedimento que eles tinham que fazer – vai limpando, tirando todas as impurezas do sangue.

Vou para Porto Alegre desde 2007, porque também faço tratamento lá. Já fiz dois transplantes, o segundo em 2010: foi quando eu aprendi a fazer os bichinhos de miçanga. Eu estava em uma casa de apoio, um lugar para as pessoas que vêm de fora e não têm onde ficar. Lá havia um menino que sabia fazer um jacarezinho e me ensinou a fazer também – as outras coisas eu aprendi só, em revistas.

Aprendi o artesanato um pouco antes do segundo transplante, que não deu muito certo. Precisei ficar no hospital por quatro meses; durante esse tempo fiz um bocado de bichinhos e vendi bastante. Gosto de fazer os chaveiros, de mexer com essas coisas. Eu fazia crochê, fuxico, tricô, mas tem um tempo que não faço esses. Sei fazer cachecol, mas gosto mais das miçangas; é mais legal construir os bichinhos.

Estou na fila de transplante. Quando conseguir, vou parar de fazer hemodiálise e ficar só fazendo miçangas, estudando... Estou no sexto ano do Ensino Fundamental. Passei cinco anos sem estudar por causa do tratamento. Quero ser advogada ou juíza, mas também quero montar uma loja com os chaveiros.

No hospital em Porto Alegre, a Santa Casa, todo mundo me conhece pelos bichinhos de miçanga. Em Brasília, eu vendo para alguns amigos da escola”.